Num só salto eleva-se nos céus, de braços abertos como Cristo pregado na cruz, deixando-se vencer pela força da gravidade, e cair a toda a velocidade com o penhasco roçando a escassos metros do seu peito despido.

O voo majestoso, digno de qualquer ave real, é controlado a cada instante com uma perícia soberba. A poucos metros de entrar na água o corpo hirto verticaliza-se, e perfura a rebentação, penetrando de cabeça nas águas do Pacifico.

Os mergulhadores desafiam a morte, saltando do cimo de La Quebrada. O ritual inicia-se desde idades muito tenras. Sobem ao cimo do penhasco com mais de trinta e cinco metros de altura por uma estreita enseada. Quando atingem o topo fazem uma oração junto de um pequeno altar, antes de mergulharem.

Os mergulhos são milimetricamente calculados, uma vez que têm de coincidir com a vinda de uma onda, para que o mergulhador não embata com a cabeça nos rochedos lá em baixo.

A cada mergulho, a tentação é fecharmos os olhos, até o vermos aparecer à tona de água festejando mais um êxito, com os braços erguidos ao céu.

Acapulco é uma cidade apaixonante, com um abrigo natural dos mais perfeitos do mundo, que se estende ao longo de uma baía com mais de cinco quilómetros.

Considerada a estância balnear mais famosa do México, Acapulco é uma cidade chique onde apetece permanecer.

Os edifícios elegantes e coloridos em torno da baía dão-lhe um toque carismático que nos prende ao lugar, como se fossemos prisioneiros do bem-estar.

Em Acapulco vive-se de bem com a vida. A felicidade espelha-se no rosto de cada mexicano que se cruza comigo. Cada minuto é encarado com uma alegria tão grande, como se fosse o último. Talvez seja um dos últimos paraísos civilizados na terra.

O sol já me tinha obrigado a emborcar algumas Margueritas, talvez por isso tudo parecesse mais belo aos meus olhos. Percorri a pé toda a baía, desde a Praia Caleta à Praia Icaços, uma das mais belas.

Mergulhadores saltam do penhasco La Quebrada em Acapulco.
Mergulhadores no penhasco La Quebrada.
© Prayitno ( CC BY 2.0 )

Um senhor olhava pelo quadradinho da sua câmara fotográfica, focando algo que para mim era imperceptível, com a máquina segura no tripé.

A sua figura já me tinha chamado a atenção quando tinha passado de manhã, na minha corrida matinal. Este homem mantinha-se no mesmo lugar, com a câmara fotográfica apontada exactamente para o mesmo local.

Que focaria ele?

Nos arredores, a Laguna Coyuca é um dos atractivos principais. Uma enorme lagoa de água doce ladeada por frondosos palmeirais. Este local foi escolhido para cenário de alguns filmes míticos, como “Tarzan” ou “Rambo”.

As límpidas águas da lagoa assistem ao contraste das velhas lanchas dos pescadores, que se cruzam com barcos de turistas, atraídos até ao local pelas óptimas condições para a prática de desportos aquáticos.

A tarde começava a decair, mas ainda houve tempo para seguirmos num todo-o-terreno até à Praia Revolcadera, onde nos esperavam uns cavalos selados.

A um ritmo calmo, cavalgámos pela praia tendo uma enorme bola vermelha como pano de fundo, que nos foi iluminando com a sua parca luz, até deixarmos de ser figuras e nos tornarmos em silhuetas perdidas no silêncio da noite.

A brisa da noite quente tocava-me no rosto numa despedida sem volta. Borrifos salgados salpicaram-me a face, desejando uma abençoada viagem de regresso.

De volta a Acapulco, imobilizei-me novamente junto de La Quebrada.

Do alto do penhasco os mergulhadores continuavam a desafiar a morte, saltando agora com tochas a arder que seguravam durante o salto.

Com uma coragem intimidante, saltavam para o vazio escuro, silencioso e confiando na sua fé, em verdadeiros mergulhos para o abismo.

Dei um passeio pela bela baía, deixando o tempo correr a seu belo prazer, tranquilo, sentindo o calor infiltrar-se no corpo.

No mesmo local, o mesmo homem, com a câmara na mesma posição. Prostrava-se sentado no chão, com uma garrafa de cerveja na mão. Com um olhar distanciado, observava o seu foco de atenção desde a manhã de hoje.

“Boa noite”, cumprimentei.

A resposta demorou-se-lhe na boca, até que por fim, quando já não a esperava, soltou-se.

“Boa noite”.

“Posso ver o que está a fotografar?”.

Mantendo a sua linha visual na direcção da curva da baía, que desembocava no sopé da montanha, absteve-se de falar.

Respeitei o seu silêncio.

Mantivemo-nos estáticos numa quietude incómoda durante alguns minutos.

Por fim o senhor quebrou o seu pacto silencioso.

“Não iria ver nada, está demasiado escuro”.

A sua resposta intrigou-me ainda mais. Porque quereria ele focar o escuro, o invisível.

Permaneci calado, até encontrar coragem para lhe perguntar.

“Porque está a focar o escuro?”.

Uma gargalhada sarcástica foi projectada, soltando um olhar de esgar que me fez sentir sem jeito.

“Sou um coleccionador de tesouros, meu rapaz”, afirmou secamente.

“Este foi o enquadramento que escolhi, e vou captá-lo em todas as luminosidades do dia”, concluiu.

Agora tinha percebido a razão de permanecer durante todo o dia, naquele local escolhido por si. Fotografava o mesmo local tentando captar todas as luminosidades possíveis, exactamente com o mesmo enquadramento.

A conversa prolongou-se noite dentro, até ficar a saber que tão estimado senhor se chamava James, e era de nacionalidade Canadiana. Passeava pelo mundo conquistando pequenos tesouros, que captava com a sua câmara, fotografando-os durante vinte e quatro horas tentando captar todas as tonalidades do dia.

Segundo me disse, era incrível como o mesmo lugar podia ser tão estranhamente diferente, consoante a incidência de luz que tem em cada hora do dia.

James era um apaixonado pela luminosidade, pelas cores e pelo sol do México, país que intitulava como sendo um dos últimos países mágicos. Segundo ele, este país tinha uma fluorescência que o encandeava.

“Os meus tesouros são os fragmentos que capto”, disse com um ar orgulhoso, estampado no seu rosto embevecido.

Estava decidido a captar o amanhecer, e os laivos vermelhos que se estenderiam pela baía fazendo-a parecer em chamas.

Decidi que estaria bem cedo, antes de o sol nascer, junto ao James e à sua câmara fotográfica, para testemunhar também esse momento.

O despertador tocou quase de seguida.

Cambaleante fui até à casa de banho, lavei os dentes e vesti-me à pressa. O sol ainda não tinha nascido, mas já havia pequenos sinais de luz na rua.

Corri pela baía, ao encontro de James.

A baía tinha realmente uns tons avermelhados mas o local, onde deveria estar James e a sua câmara, estava deserto.

Como seria possível?

O sol nem sequer tinha ainda nascido.

Mas James já tinha partido para outras paragens, na procura de mais tesouros, afinal era um coleccionador.

Partira de Acapulco subtilmente, quase como entrou, sem que ninguém tenha dado por ele.

Quem sabe, já tivesse captado a imagem perfeita.

Praia em Acapulco cheia de chapéus-de-sol e águas verde-esmeralda.
As praias de águas cristalinas e cor verde-esmeralda, são uns dos cartões-de-visita de Acapulco.
© Andrew Gatt ( CC BY 2.0 )