“Homens ao mar”… A lancha velha de madeira tinha acabado de se voltar, ao embater numa onda de maior envergadura após uma manobra mal calculada.

“Está sempre a acontecer por aqui” mencionou o timoneiro da nossa embarcação com um ar visivelmente divertido. O nosso barco tinha o nome de “Hakuna Matata”, propriedade do empreendimento turístico da ilha do Mussulo. Era bastante moderno e possuía dois motores de alta potência.

“Não é melhor ajudar?”, questionou alguém que vinha no barco.

“Não se preocupem, eles desenrascam-se”, respondeu enquanto manobrava o barco em zigue-zague a alta velocidade.

Momentos antes no cais de partida, tínhamos sido absorvidos por um monte de barqueiros, que garantiam melhor preço em menos tempo para fazer a travessia para o Mussulo.

Decididamente escolhemos a melhor opção, apesar de um bocadinho mais cara.

Olhei para trás, e lá estavam quatro cabecinhas a flutuar no mar agarradas ao casco, até que por fim outro barco se aproximou deles para ajudá-los a subir a bordo.

Sem sobressaltos de maior, atracámos num cais flutuante improvisado, e pisámos terra firme.

A ilha do Mussulo situa-se a sul de Luanda. Possuidora de uma beleza extraordinária, cativa qualquer alma que tenha o privilégio de a pisar.

O seu estado selvagem é tão evidente, que ainda não dispõe de água potável nem luz eléctrica, sendo esta abastecida através de geradores.

Do lado continental, as águas são calmas e transparentes, ideais para a prática de desportos aquáticos, estando a sua costa repleta de coqueiros.

No lado Oceânico, o mar oscila entre o azul e o verde, e é mais agitado. As praias têm areia branquíssima e as pequenas aldeias são habitadas por pescadores nativos.

Um grupo de crianças aguardava-nos à chegada, cobertos de colares e pulseiras, bem como outras peças de artesanato excepcionalmente bem trabalhadas, tentam-nos com as suas habilidades na esperança de obter uns Kwanzas.

Todas as estratégias são permitidas, desde danças a olhares meigos, na tentativa de captar a atenção. Os seus semblantes divertidos e olhos cativantes seduzem-me, sendo impossível diferenciar esta ou aquela criança. Sabendo que este é seu principal meio de subsistência, dei comigo a comprar colares e pulseiras a todas as crianças que se cruzavam comigo. Pelo menos tinha recordações para distribuir aos amigos e família, quando regressasse.

Um rapazinho, para os seus 12 anos, com um ar mais atrevido ofereceu-se para ser o nosso guia na ilha.

Envergava uma camisola do Inter de Milão, onde o único pedaço que não estava rasgado era o emblema. Calçava uns chinelos feitos de garrafas calcadas de água mineral, através da qual passava uma corda onde prendia os dedos. Imaginação tinha ele, os chinelos eram sem dúvida originais.

Atravessámos a ilha para o lado oceânico, para nos banharmos em pleno Atlântico.

Com a preciosa ajuda do “guia” que nos indicava o caminho sempre em frente, afinal estávamos numa ilha, bastava caminharmos em linha recta para chegar ao mar, do outro lado. Alcançámos uma praia fabulosa.

Deserta, selvagem e incrivelmente bela. O mar verde-esmeralda via a sua tonalidade interrompida, com o branco da rebentação das ondas, que estavam bravas.

O “guia” despediu-se, uma vez que os pais o esperavam para ajudar numa tarefa, enquanto nós contornámos a ilha sempre junto à costa até chegar novamente ao lado continental da mesma.

As praias virgens sucedem-se deslumbrantes, neste paraíso perdido algures no meio do oceano.

Aqui e ali, pequenas aldeias com algumas embarcações que descansam de mais uma noite de faina, enquanto de quando em vez alguém espreita pela janela de uma cubata.

Um senhor, que mais parece um pescador nativo, sentado debaixo de um coqueiro, olha de soslaio à nossa passagem enquanto cose as suas redes de pesca.

Aproximo-me e peço permissão para o fotografar.

De olhar desconfiado, inicialmente não reage. Eu insisto, mas parece não perceber. Concluo que fala apenas um dialecto, nem sequer conhece a língua Portuguesa.

Mostro-lhe a máquina fotográfica, mas ele abana energicamente com a cabeça em sinal de negação.

Seguimos caminho, já andámos cerca de três horas e não há meio de avistarmos a costa continental da ilha.

As aldeias começam a ser mais. A partir de um determinado contorno da ilha, já conseguimos avistar Luanda, e as cubatas aglomeram-se em maior número.

As pessoas tinham um aspecto diferente, não parecendo tão nativas como isso, tornando mais assustador o que faltava percorrer até ao ponto de partida.

Infelizmente as nossas expectativas confirmaram-se, quando eu e três amigos somos abordados por um homem com os olhos esgazeados, de muita maconha, empunhando uma garrafa de cerveja partida.

Surgiu do nada, e apanhando-nos de surpresa, agarrou por trás um elemento do grupo, encostando a garrafa ao pescoço exigiu dinheiro, num tom desesperado.

Assustados e sem dinheiro para dar, uma vez que estávamos de calções e todos os nossos haveres tinham sido deixados no complexo turístico, tentámos apenas acalmar a situação.

A “negociação” decorreu durante breves minutos, que pareceram uma eternidade, tendo sido resolvida com apenas quatro cigarros. O homem agarrou os cigarros, e num choro desesperado correu pela areia até se perder no mangal.

O resto do dia foi passado no complexo turístico entre banhos e algumas cervejas, para nos restabelecermos do recente sobressalto.

As crianças continuavam a expor o vasto leque de colares, pulseiras e artesanato. Outros vinham com alguidares na cabeça vendendo castanha de caju por medida. O contacto com estas gentes foi extremamente enriquecedor, porque apesar de serem crianças foram obrigadas a crescer demasiado rápido, passando ao lado da infância.

O nosso “guia” aparece com a sua camisola do Inter de Milão, entre rasgos e listas, com um sorriso nos lábios e os olhos tão brilhantes como órbitas.

“Como te podemos pagar Nonda?”.

“Uma garrafa de água estava bom”, respondeu Nonda exibindo os seus dentes brancos como a areia.

A água potável é um bem essencial e raro em Angola, uma simples garrafa de água tem um valor inquantificável. Um litro de água é mais caro que um litro de gasolina.

Comprei cinco garrafas de litro e meio, e distribuí pelo Nonda e amigos. Breves segundos depois, vindos sei lá de onde, uma multidão de crianças se deliciava com tão preciosa fonte de vida. Tínhamos acabado de conquistar amigos para toda a vida.

Outro miúdo com uma bola de trapo, desafiou-nos para um jogo de futebol, mas o dia já ia longo, tínhamos de regressar.

Foi feita a promessa que na próxima semana estaríamos novamente no Mussulo, levaríamos a bola para o desafio de futebol, quem ganhasse o jogo ficaria com ela.

A semana passou rápida até ao fim-de-semana seguinte.

No cais de embarque os mesmos de sempre, com promessas de melhores preços em menor tempo de travessia. Apeteceu-me perguntar quantas vezes tinham virado o barco no trajecto, mas optei por esperar calmamente pelo Hakuna Matata.

A travessia foi tranquila e rápida. Nas mãos levava uma bola acabadinha de comprar, que girava sobre o dedo enquanto observava a aproximação dos coqueirais cada vez mais perto.

À medida que nos aproximávamos dos cais, um cacho de meninos acenava felizes por nos ver. Os seus olhos quase brilharam que nem estrelas quando viram a bola. Lancei-a para o meio deles. Eram seguramente trinta crianças que corriam atrás dela a cada pontapé que davam, percorrendo uma vasta extensão de areia.

Enquanto pousávamos as toalhas e mochilas, Nonda dirigiu-se até nós dizendo que estava tudo pronto. O campo ficava num areal mais interior da praia, tinham sido construídas balizas de madeira, com dois paus de cada lado. O círculo do meio campo também estava desenhado no chão, bem como a pinta do penalty.

A dificuldade foi formarem a equipa, uma vez que eram 29 miúdos, enquanto nós apenas 4.

Todos queriam jogar, e estavam demasiado excitados para ficarem de fora num jogo tão importante. Antes de se gerar qualquer desentendimento, concordámos que jogassem todos contra nós.

Durante o encontro, mais do que o prazer de jogar, regozijei-me com a felicidade que as crianças desfrutavam do jogo, que parecia a sério e com uma bola profissional.

Golo aqui, golo ali, apesar de termos corrido muito não conseguimos evitar uma pesada derrota, para deslumbre de todas as crianças que festejavam tão efusivamente, que pareciam ter ganho a taça de África.

crianças em Angola
Sorrisos cativantes que não deixam os visitantes indiferentes.

Sentado no meio do campo, uma criança com quatro ou cinco anos estava num pranto. Aproximei-me dele para saber se estava magoado.

Levanta o queixo, e com os olhos lavados em lágrimas, proferiu “ganhámos, ganhámos”.

“Pois ganharam, parabéns”, consegui soltar, com os olhos marejados também.

Quando chegou o fim do dia, enquanto esperávamos no cais, muitas das crianças que tinham jogado à bola connosco, faziam-nos companhia perguntando quando voltávamos.

Entretanto chega o Hakuna Matata, embarcámos e seguimos para a outra margem, enquanto o sol alaranjado já se escondia por detrás do mar.

Na praia as silhuetas negras corriam atrás da bola pelo areal sem fim, quem sabe até ao nascer do dia.