“Quero ser um porto suspenso no mar
Um lugar sereno que não se quer afundar
Quero ver os remos chocalharem nas águas
E os candelabros iluminarem as luas
Quero esperar um novo dia depois da escuridão
Escondendo-me de barcos, pontes e da multidão
Quero navegar pelas tuas veias, perdida
Sentir as águas, as ondas e a vida.

O mar verde e cansado lambia as muralhas que o envolviam. Sereno e tranquilo, invadia lentamente as ruelas e labirintos sem saída, que escorriam genuinamente até aos bairros populares.

O marulhar das águas, massajava-me o casco com meiguice e afecto, acordando-me de mais uma longa noite escura e vazia.

A luz coada dos primeiros raios de sol espraiava-se pela laguna e pelas praças, tocando ao de leve nas gôndolas como se lhes desejasse os bons dias.

Bocejei e olhei em redor, tudo demasiado quieto e silencioso. Uma neblina cobria a laguna, envolvendo-a numa auréola misteriosa, como se não quisesse desvendar todos os seus segredos. Amarradas às estacas permaneciam adormecidas esperando a chegada dos seus gondoleiros para mais um dia, igual a tantos outros.

Os troncos que as agarravam reapareciam aos poucos por entre o manto, como se fossem velhas sentinelas de silhuetas silenciosas.

O grande canal ainda está vazio, de gentes, de sol, de conversas. Os canais adjacentes permanecem escuros, envoltos em sombras flutuantes de velhos edifícios constantemente beijados pelas águas.

Ao fundo um bando de pombos bateu asas na Praça de São Marcos, ausente de pessoas enquanto os ténues raios de sol a tentavam aquecer.

As cúpulas e as torres espreguiçam-se aos céus, começando a erguer-se acima de todos os telhados e da laguna, que permanece no seu murmúrio constante acariciando pedras, escadas, casas, estacas e as gôndolas.

“Buon giorno”, ouvi.

Era o meu gondoleiro, animado e sempre disposto a cantar mais um “Sole Mio”. Vestido como habitualmente de calças pretas, e camisa às ricas vermelhas e brancas, além do chapéu de palha na cabeça.

Veneza situa-se no extremo nordeste de Itália, assumindo a exclusividade de ser uma das poucas cidades do mundo que pode ser descrita como sendo única. Construída sobre os bancos criados pelas correntes do Adriático, a planta da cidade é composta por cento e dezassete ilhas, ligadas entre si por quatrocentas pontes e cento e cinquenta canais.

Veneza é uma cidade encantada que parece estar suspensa no meio da laguna.

Os turistas começam a reaparecer aos poucos, como se surgissem por debaixo das pedras, na sua maioria trazidos pelo Vaporeto, que assegura a ligação entre ilhas.

campanário e basílica de São Marcos em Veneza
Praça de São Marcos,
© Leandro Neumann Ciuffo ( CC BY 2.0 )

O silêncio vai sendo absorvido por pequenos murmúrios, e depois pelos gritos das crianças. Ainda o sol não está a pique e já a cidade está repleta de esplanadas a abarrotar de gente que procura devorar tudo com os olhos, de forma desenfreada.

Eu, permaneço alheia a todas as confusões, flutuando sobre as águas calmas por entre brumas e sombras, deixando-me inebriar pela atmosfera fascinante que me envolve.

Navego à deriva perdendo-me por ruas estreitas e sombrias, observando casas antigas e igrejas que se prostram perante as águas que chapinham de encontro às escadas de pedra, que descem até ela.

Deixo-me levar pelo sabor da brisa fria e húmida, que arrasta pelos seus labirintos confusos e apertados, omissos a qualquer nesga de sol. Passo por debaixo de pontes, espreito de soslaio em cada esquina, tentando vislumbrar o outro lado da rua.

Consigo ouvir a passada segura de uns sapatos de salto alto, mas não vejo quem os pisa. Sigo ao longo do canal, espreitando a cada cruzamento com a rua empedrada que segue paralela ao meu lado, mas nem uma visão. Apenas o bater dos saltos a afastarem-se até os perder por completo.

No mercado de Rialto é visível a azáfama e o tráfego da cidade. As barcaças carregam as encomendas para iniciarem as suas entregas, vaporettis apinhados de gente até às costuras irrompem pelas agitadas águas, cruzando-se com inúmeras gôndolas e diversos barcos de carga.

Percorro o Grande Canal que serpenteia o centro da cidade com as suas águas verdes. Ao longo dele estendem-se maravilhosos palácios, quase todos com nomes de grandes famílias Venezianas, resumindo os cinco séculos de história da cidade.

Regresso à entrada da magnífica Piazzetta e deslumbro-me com a praça.

Jamais poderei pisá-la. Jamais poderei senti-la sequer debaixo do meu casco. Olho cá de fora, e encanto-me com as suas arcadas encobertas por entre pernas e mesas de esplanada. Daqui apenas consigo ver uma parte de si, uma ínfima parcela de todo o seu esplendor.

Nos céus ecoam as badaladas do sino do campanário, como a querer dizer “presente”. Olho para cima, e lá está ele no alto da sua torre, vigilante sobre tudo o que se passa cá em baixo, como se nos protegesse de qualquer intempérie.

Mesmo à sua frente uma fila enorme de turistas, que espera a sua vez para entrar na Basílica de São Marcos, considerada o símbolo da cidade e todo o seu esplendor, visto estar intimamente ligada a toda a sua história.

Olho para o chão feito de água, que me suspende, e deixo cair uma lágrima que se desfaz no mar da laguna. Sinto-me triste por fazer parte deste lugar, e não poder desfrutar fisicamente de certos locais.

Sinto uma injustiça invadir-me a proa, e um aperto no tolete, que quase não me deixa soltar o remo. Tenho de me afastar, preciso sair daqui.

Um casal de turistas embarca em mim desajeitadamente, deixando-me ainda mais instável.

Lá tem de vir mais um “Sole Mio”, para encanto do par. Passo por baixo da Ponte dos Suspiros, e também eu suspiro por não poder ter outra perspectiva da cidade. A ponte pisca-me o olho. Resignada com o facto de estar ali presa. Ao longo de muitos anos serviu de passagem entre o Palácio Ducale e a prisão, testemunhando os suspiros dos prisioneiros que por ali passavam, talvez se tenha acomodado a estar presa em si mesma.

Navego pelos canais mais estreitos da cidade, continuando a espreitar a cada esquina com a curiosidade cada vez mais aguçada. Por detrás dos edifícios, ressoam sons que não consigo estabelecer qualquer ligação, fazem parte de um mundo que não é o meu, o mundo terrestre.

Amigos conversam ao virar da esquina, enquanto crianças correm atrás de pombos que batem asas apressados. A água, essa continua afável a acariciar as pedras, como se marcasse o ritmo da cidade.

Volto até à Piazzetta e deixo-me amarrar ao tronco. Uma ligeira brisa irrompe pelo canal provocando um calafrio. O sol tímido já se esconde, encoberto por umas nuvens escuras que insistem em não deixá-lo espreitar.

Flutuo ao som das ondas que me afagam o casco, numa intimidade só minha e delas, enquanto o sol se vai esbatendo por completo no horizonte até cair, e submergir-se na laguna.

gôndola com turistas nos canais em veneza
Gondoleiro em Veneza.
© Iron Pedreira Alves ( CC BY 2.0 )

“Porque estás triste?”, perguntou-me o Palácio Ducale.

“Porque não posso pisar a Praça de São Marcos e ver toda a sua beleza”, respondi.

“Estás triste por isso? É por isso que choras?”.

“Falas assim porque és belo, toda a gente te quer ver e daí podes ver tudo o que eu não posso”.

“Estás enganada, tu és livre, podes navegar pelos canais, conhecer Veneza de uma ponta a outra. Podes embrenhar-te por ruelas, conhecer bairros, outras ilhas. Eu não posso sair daqui”.

“Mas és belo. Eu não sou”.

“Quem me dera ser livre”, respondeu o Palácio Ducale.

A gôndola permaneceu imóvel e susteve a lágrima que escorregava pela proa.

A ténue ondulação balouçava-a mansamente, reflectindo-a nas águas em tons de prata. Olhou-se ao espelho, e reparou em toda sua beleza.

Negra e reluzente, reflectida nas águas tranquilas da laguna. Ainda por cima era livre, podia muito bem ir para onde quisesse, conhecer Veneza de fio a pavio, sem que nada a prendesse.

Talvez fosse mesmo uma privilegiada.

A noite engoliu o dia. Os candeeiros emanavam uma luz liliputiana.

As gôndolas amarradas aos troncos continuavam a sua dança íntima com as ondas, que continuavam a segredar baixinho junto das escadas feitas de pedra.

A escuridão envolveu a cidade imersa numa ligeira neblina, como se voltasse a emergir das águas da lagoa, que a beijavam incessantemente e sem descanso.

A gôndola deixou-se adormecer enquanto o silêncio avançou sobre tudo.