“Turistas não sabem onde estiveram, viajantes não sabem para onde irão!”
Paul Teroux, escritor de literatura de viagem, 1941 –

Um

Cá por casa, sempre que isso é possível, escolhemos democraticamente e à vez um destino diferente para viajar. Em 2013 foi a vez de concretizar um sonho antigo da Andreia: uma viagem a Nova Iorque, cidade bem no coração dos EUA. Assim, no dia estival e solarengo de 10 de Setembro de 2013, depois do cornetim da alvorada ter batido as seis da manhã, partimos da Sobreda, por volta das 07h20m, com destino ao Novo Mundo. A primeira etapa ficou por conta da minha irmã Tina, que nos deu boleia até à estação ferroviária no Pragal, em Almada. E sim, os meus cadernos de viagem têm tudo anotado detalhadamente: locais, datas, horas, pessoas e histórias. Só assim posso recordar detalhadamente os momentos que depois gosto de partilhar com os meus leitores.

Temperados pela magia da viagem, com os bilhetes de comboio na mão e os pés na plataforma 1, o simples facto de apanhar o comboio para Lisboa enchia-nos de energia. A meio da travessia da Ponte 25 de Abril, e na impossibilidade de percepção da realidade, vislumbrámos a Sul um belo bocejar da cidade de Almada. Do outro lado, a Norte, Lisboa espreguiçava-se. Em baixo, no rio Tejo, um cacilheiro navegava ao som de “Verde Anos” de Carlos Paredes.

Faltavam pouco mais de 10 minutos para as 8h quando os nossos pés desembarcaram na estação de Sete Rios, em Lisboa. Alguns lanços de escadas rolantes e três minutos depois apanhámos o metro para S. Sebastião. Seguiu-se uma última viagem até à novíssima estação do Aeroporto Internacional de Lisboa, na Portela. Chegados, um primeiro contratempo: as escadas rolantes não se encontravam em funcionamento – não tenham força braçal e vão ver como o que é carregar com as bagagens por aquelas escadas acima. Ufff! Só de pensar fico cansado.

Depois de assentarmos arraiais, foi com uma intensidade colorida, doce e divertida, comum a todas as tribos que por ali proliferavam, que também ligámos os nossos gadgets ao free wi-fi do aeroporto. “Surfamos na net” à espera do check-in, sempre na companhia de um café ou jornal. Pouco depois das 9h, no balcão 76, lá fizemos o check-in, curiosamente sem ninguém à nossa frente. Tínhamos, finalmente, entre mãos os tão desejados cartões de embarque, onde podíamos ler: voo – TP103; destino – Newark; Gate – 45; partida – 12h20. Neste momento deverão estar a pensar: “Mas o destino não era Nova Iorque!?”. Sim! Efectivamente, Newark e Nova Iorque são duas cidades distintas e geográficas diferentes. A primeira fica no estado de Nova Jérsei. A segunda no estado de Nova Iorque. Eu resumo: a cidade de Nova Iorque é servida basicamente por três aeroportos civis: La Guardia, essencialmente utilizado para voos domésticos, instalado do distrito de Queens, em Nova Iorque; John F. Kennedy – vulgarmente conhecido por JFK –, para voos internacionais, também a funcionar em Queens; e o Newark Liberty, instalado do outro lado da baia do rio Hudson, já no estado de Nova Jérsei, que é o aeroporto internacional utilizado pela TAP, companhia aérea de bandeira portuguesa. Resumindo: Newark não é o aeroporto mais próximo do centro de Nova Iorque, mas também não fica suficientemente longe para que não seja uma opção – um par de horas é suficiente para fazer o percurso que dista até ao centro da Big Apple.

Um pouco mais tarde do que previsto, já muito próximo da uma da tarde, o avião fez-se à pista, levantando voo com os motores “a todo o gás”. Estávamos em contagem decrescente para as sete horas e vinte minutos que iríamos demorar a atravessar o atlântico, sempre com a hipnotizante odisseia do “nunca mais chegamos…”.

Dois

Aterrámos às 15h20, hora local, menos 5h do que em Portugal. Era mais tempo que ganhávamos para nós nesta aventura. A partir de agora havia que mentalizar-nos do fuso horário yankee. Alguns minutos depois as portas abriram-se, meia dúzia de passos em frente e agora sim: podia alcançar o verdadeiro sentido da expressão “pé seco em solo norte-americano”. Passo a explicar: há uns anos, enquanto viajava pelas Caraíbas, mais precisamente em Cuba, contaram-me a história do “pé molhando, pé seco”. É uma história simples, que tem a ver com os cubanos que tentam alcançar via marítima os EUA, e que resulta numa de duas conotações: os “pé molhado”, atribuída a todos os que são apanhados no mar e são repatriados; e os “pé seco”, expressão pela qual são conhecidos os que conseguem chegar à Florida, são autorizados a ficar e conseguem o visto de asilo político.

painel informativo do monocarril da rede AirTrain do aeroporto de Newark
Monocarril no Aeroporto Internacional de Newark.

Recolhidas as bagagens, rumámos à última fronteira: a Alfândega, o controlo de Passaportes e a verificação dos ESTA – Autorizações electrónicas de viagem para entrar nos EUA. Depois desta “peripécia”, que oportunamente contarei numa das próximas publicações, era tempo de rumar a Nova Iorque, não sem antes de fazermos uma breve passagem por uma agência de câmbios, onde trocamos uma mão cheia de Euros por quase duas mãos cheias de Dólares. Primeira coisa a fazer: apanhar o comboio. Why? Andar de comboio, além do elã que representa para qualquer viajante, encerra a vantagem de três importantes B’s: bom, bonito e barato.

O Aeroporto Internacional de Newark dispõe de três terminais (A, B e C). A nós calhou-nos o terminal B, sem que isso representasse qualquer problema, pois existe um monocarril, denominado AirTrain, que liga gratuitamente todos os terminais. Apanhámos o primeiro monocarril até Air Starion P4, apenas a duas paragens de onde nos encontrávamos. Depois, já numa linha diferente, seguiu-se um breve percurso de uma estação até à Newark Liberty Airport, estação onde nos aguardava o comboio da NJ Transit para Nova Iorque – a companhia Amtrak também opera na mesma linha mas é mais cara. Convém não esquecer que os bilhetes devem ser comparados logo à saída da alfândega, num local criado para o efeito com várias máquinas automáticas, onde um conjunto muito prestável de senhoras, algumas meio roliças, ajuda no que for necessário. Pelas 18h04 – horário do Tio Sam – chegámos à estação Newark Penn e cinco minutos depois bocejávamos à passagem pela estação de Frank R. Lautenberg, ainda no estado de Nova Jérsei. Estávamos quase lá! Eram 18h20 quando o coração da Andreia bateu mais forte e exclamou: Nova Iorque, Nova Iorque!

Nova Iorque fica num estado que tem o mesmo nome mas, por mais bizarro que isso possa parecer, a capital do estado é Albany. Pergunto-me se cabe na cabeça de alguém colocar “Albânia” como o nome da cidade capital do estado de Nova Iorque? É quase como se a figura do Zé Povinho, criada pelo mestre Bordalo Pinheiro, usasse na cabeça o chapéu do americano Tio Sam! Enfim, adiante… Faltavam poucos minutos para as 18h30 quando desembarcámos em pleno coração da ilha de Manhattan, onde os nossos “pés secos” se ficam temporariamente pela estação terminal de Pennsylvania Station, ou simplesmente Penn Station, como os americanos a tratam.

Três

Lá fora, na rua, apesar de o relógio apontar para as 18h45, os arranha-céus de Manhattan, na sua articulada assimetria, pareciam brincar com as luzes e as sombras. Enquanto lá em cima era dia e o sol brilhava, cá em baixo, nas intermináveis ruas da envolvente, parecia ser noite tal era a penumbra.

Agora, para acabar a epopeia iniciada em Lisboa, faltava chegar ao hotel onde iríamos ficar instalados nos dias seguintes: o Pan American Hotel, instalado em Queens. Para quem não sabe, ou chega pela primeira vez à cidade, fica com a impressão que Queens é um bairro de Nova Iorque, muito ao estilo do que Alfama ou o Castelo são para Lisboa, mas tal não pode estar mais errado. Uma cidade como esta, que só por si tem mais habitantes que Portugal, não pode ser constituída única e exclusivamente por bairros. Num dos próximos textos explicarei como funciona a sua organização.

Depois de perguntarmos a um chinês, dois mexicanos, três americanos, um francês, um indiano e não sei quantas mais pessoas, como poderíamos deslocar-nos da Penn Station para o hotel em Queens, lá conseguimos dar com a estação de metro mais próxima. Mal entrámos o nosso olhar fixou-se imediatamente nos militares, todos vestidos com camuflado de guerra, que se avistavam em grande número e um pouco por todo o lado. Para juntar ao quase aparato cinematográfico, em cada parede, vão de escada, banco, ou até no tecto, avistavam-se ainda enormes placas informativas com a seguinte inscrição: “If you see something, say something”. E logo por baixo o número da NYPD – Official New York City Police Department. A situação era quase surreal, mas há que não esquecer a data em que nos encontrávamos: 10 de Setembro, véspera da celebração do fatídico 11 de Setembro.

Ultrapassado aquele impacto inicial, nova contrariedade: comprámos os bilhetes errados! Em vez de adquirirmos os títulos de viagem para o metro, ou os passes semanais para utilizar na rede MTA – metro, autocarro e comboio –, imagine-se, comprámos bilhetes para o comboio PATH. Que nabos! O meu inglês da “border” deixou-me claramente ficar mal. Resumindo: teve de ser a Ana Maria, com o seu impecável inglês do Cambridge, a comprar os bilhetes que nos fizeram sair de Manhattan. Chegados à estação Grand Avenue Newtown, já em Queens, a Ana voltou a entrar em acção, mas desta vez para comprar os passes semanais – 31 Dólares ou 23,50 Euros ao câmbio de Setembro de 2013 – que iríamos utilizar durante toda a estadia em Nova Iorque.

Com a estação de metro a ficar para trás, foi numa curta caminhada que alcançamos o Pan American Hotel, situado na Queens Boulevard, já muito perto das 20h00. Instalaram-nos no quarto 437, ou seja, o quarto nº 4 do 37º andar. A vista prometia surpresas!

José Alberto Santos e Ana Maria no McDonald´s em Queens, Nova Iorque
Jantar no McDonald´s da Queens Boulevard, Nova Iorque.

Depois convenientemente de instalados, saímos para jantar numa das salas de refeições mais famosas da América: o McDonald´s. Sem grandes surpresas, o restaurante não era muito diferente do que estamos habituados a encontrar na Europa, mas o refill das bebidas era nice! De volta ao hotel, era tempo de recolher ao quarto, apagar as luzes e deixar-nos contagiar pelo silêncio da primeira noite nova-iorquina. E antes de cairmos nos braços de Morfeu, lembro-me de recordar, ainda que fugazmente, o lema do momento em Nova Iorque: “If you see something, say something”. Que ninguém diga que não soubemos onde estivemos. Para onde iríamos no dia seguinte? Isso são palavras para outra viagem!