Dois ferries cheios e uma quantidade de minutos depois, lá conseguimos embarcar em direcção à Ilha da Liberdade, através de uma navegação suave feita sob o estuário escuro do rio Hudson que, a par do East River, são os rios de banham e atravessam Nova Iorque.

Passavam poucos minutos das 10h30, já com o ferry preso ao cais, quando a turba se precipitou sobre a pequena liberty – uma ilha federal situada na parte alta da baia de Nova Iorque, rodeada pelas águas de Jersey City, Hudson County e New Jersey – talvez na ilusão de alcançar rapidamente a base da majestosa e sempre vigilante Estátua da Liberdade.

A ilha é relativamente pequena e a primeira paragem é efectuada na Praça Flagpole. A brisa corria lenta e a envolvente era de perder o fôlego. Diria que se gerou um misto de sentimentos que se apoderou de nós, enchendo-nos o coração e fazendo-nos acreditar que viajar é isto… É ser surpreendidos a cada instante e ver com os olhos aquilo que a alma sente.

À esquerda da Ilha da Liberdade, a poucas braças marítimas, fica a mítica Ilha EllisIlha Ellis, que foi ao longo do século XIX e princípio do século XX a principal porta de entrada nos Estados Unidos para quem aportava pelo lado atlântico. Falo de pessoas provenientes de inúmeras origens; brancos, pretos e das mais variadas raças ou etnias; com cabelos loiros, castanhos ou ruivos, lisos ou encarapinhados; indivíduos altos, baixos, regulares ou disformes; homens, mulheres, velhos ou novos. Todos eram depois aqui triados e fundidos na forte liga metálica de que hoje é feito o povo americano: o American Way of Life. Falar da Ilha Ellis é, por isso, falar do valor simbólico que tem a imigração do velho para o Novo Mundo. A ilha é visitável mas há data da nossa visita a Nova Iorque, devido aos estragos provocados pela passagem do furacão Sandy, em Outubro de 2012, a mesma encontrava-se encerrada para obras de beneficiação. Soubemos mais tarde que só voltaria a abrir em 28 de Outubro de 2013.

Ferry no rio hudson que chega a liberty island
Chegada de um ferry a Liberty Island.
Ellis Island vista deste o miradouro da estátua da liberdade.
Ellis Island.

Voltando à Praça Flagpole, não pudemos abandonar o local sem antes fazer dezenas de fotografias ao skyline que enquadra a baixa de Manhattan – ligeiramente para nordeste – e de nos lambuzarmos com uns deliciosos gelados da Ben & Jerry´s.

São apenas unas dezenas de metros até à entrada da Estátua da Liberdade, monumento cujo nome oficial é Liberty, Enlightening the World – A Liberdade Iluminando o Mundo. E não, não vou repetir os milhentos adjectivos que já foram proferidos para descrever aquela senhora vestida com uma Palla – um manto que as mulheres romanas usavam sobre a túnica –, representando a deusa romana Libertas. Num primeiro impacto, a mim pareceu-me mais o Colosso de Rhodes do século XX, de inspiração maçónica pelos símbolos que apresenta: uma tocha flamejante erguida bem alto com a mão direita; uma tabuleta com leis na mão esquerda, onde está inscrita a data da independência dos Estados Unidos – 4 de Julho de 1976; e, lá bem no alto da sua cabeça, o tão famoso diadema de 7 espigões.

Há seguramente muita informação de cariz mais técnico e histórico sobre a Estátua da Liberdade, mas isso fica para os livros escolares e guias turísticos. Para a Andreia, a cidade de Nova Iorque é a sua Jerusalém, sendo a Estátua da Liberdade um dos seus locais de culto. Era por isso que ali estávamos!

Decidimos visitar a Estátua da Liberdade em silêncio. Começámos por visitar a base e o pedestal, local onde se encontra a coroa original exposta num amplo espaço. Seguiram-se os 377 degraus metálicos, desde a entrada principal, que nos levaram em espiral até ao miradouro instalado na coroa da estátua. O esforço não é pequeno, mas é altamente recompensador. São 25 janelas de onde se alcança uma vista soberba, que parece querer alcançar o infinito e nos faz atravessar um estado de paz suprema.

Tocha original da estátua da liberdade de Nova Iorque, agora em exposição.
Tocha original da Estátua da Liberdade.
Escultura de Frederic Bartholdi no jardim das esculturas em Liberty Island.
Escultura representativa de Frederic Bartholdi.

A Estátua da Liberdade foi inaugurada por ocasião do centenário da assinatura da declaração de independência dos Estados Unidos e é um presente oferecido pelo estado francês. O projecto foi assinado pelo escultor francês Frédéric Auguste Bartholdi que, para o esqueleto interno do monumento, todo construído em ferro, contou com a colaboração do engenheiro Alexandre Gustave Eiffel, o mesmo que projectou a Torre Eiffel, em Paris, ou a Ponte D. Maria Pia, um dos ex-líbris da cidade do Porto.

E apesar da Estátua da Liberdade ter uma espécie de pai oficial, eu diria que poderia ter muitos outros: Edouard René de Laboulaye, o historiador francês verdadeiro ideólogo da concepção da estátua – sim, o mesmo Laboulaye do filme o Tesouro Perdido com Nicolas Cage; Joseph Pulitzer, o editor americano nascido Pulitzer József, em 1847, na Hungria, criador dos conceituados prémios Pulitzer de jornalismo e principal mentor da angariação de fundos para a construção do pedestal da estátua; ou, por último, a poetisa Emma Emma Lazarus, autora do famoso soneto “The New Colossus”, doado para um leilão de angariação de fundos – este soneto encontra-se hoje gravado numa placa de bronze colocada no interior da estátua.

Passou-se pouco mais de uma hora quando iniciámos o regresso ao cais de embarque para voltar Manhattan, mas não sem antes passarmos pelo Jardim de Esculturas da Ilha da Liberdade, onde é possível apreciar cinco estátuas do escultor Phillip Ratner: são estátuas em bronze e simbolizam, em certa medida, os fundadores da Estátua da Liberdade.

Encontrámos novamente um cais repleto de gente, com todos a atropelarem-se para garantir a sua vez no embarque. Por alguns instantes perguntei-me se estariam com receio de ficar retidos na ilha… Enfim, Manhattan teve que esperar mais algum templo pelo nosso regresso.

Muitas pessoas na extremidade da Liberty Island junto à base da estátua da liberdade.
Liberty Island junto à base da Estátua da Liberdade.
Manhattan em Nova Iorque vista desde o rio hudson.
A deslumbrante Manhattan.