Solto uma gargalhada sonora, não consigo evitar. O Artur mostra-me o cartão-de-visita mais curioso que recebi na minha vida. Sobre uma foto antiga da montanha leio: “Dono do Monte Ararat”.

A Primavera tinha começado em Portugal há bem pouco tempo, quando recebo um email de um amigo que vive na Turquia e cujo titulo era Have you ever climbed a 5,000 m summit? Come and do it in Turkey – July. A ideia encantou-me; regressar à Turquia, um país que adoro, conhecer a sua zona leste e estar com o Zé Pedro que nos acolheu em sua casa em Ankara uns anos antes, era um excelente programa. A mensagem tinha o itinerário descrito, com toda a informação para podermos decidir e pouco bastou para começarmos a sonhar com esta viagem. Ironia do destino, o nosso amigo acabou por cancelar a sua ida, mas a nós já ninguém nos demovia. Havemos de encontrar a Arca de Noé, dizíamos!

Das primeiras histórias que ouvimos do livro do Génesis, a da Arca de Noé é talvez a mais fascinante. Lembro-me, ainda criança, de pensar que maravilhosa aventura esta de partir numa enorme arca cheia de animais. Esta alegoria bíblica tão encantadora aos olhos dos mais novos, ganhou novo sentido e parti com espírito expedicionário em busca de vestígios desta grande embarcação. Deus salvou Noé e sua família do grande dilúvio: era o único homem virtuoso do seu tempo que merecia viver sobre a Terra. Foram 40 dias e 40 noites de chuva ininterrupta, que eu esperava não encontrar durante a minha estadia, e a água permaneceu sobre a Terra durante 150 dias. E quando finalmente as águas começaram a diminuir, a Arca acabou por vir a descansar no cume do monte Ararat.

Vista do cone perfeito do pequeno Ararat - Küçük Agri Dagi - desde uma encosta coberta de neve.
Cone quase perfeito do pequeno Ararat.

Monte Ararat, Agri Dagi em turco, é um maciço vulcânico extinto a leste da Turquia na convergência das fronteiras da Turquia, Irão e Arménia. Todo o maciço tem cerca de 40 km de diâmetro e consiste em dois picos que distam cerca de 11 km entre eles: o grande Ararat, ou Büyük Agri Dagi, que atinge uma altitude de 5137 metros acima do nível do mar, é o pico mais alto da Turquia; já o pequeno Ararat, ou Küçük Agri Dagi, sobe numa superfície lisa e íngreme, num cone quase perfeito para 3896 metros. Ambos, Grande e Pequeno Ararat, são produto da actividade eruptiva vulcânica. O único verdadeiro glaciar é encontrado no lado norte do Grande Ararat, perto do seu cume.

A sensação de fazer parte de um filme de Kusturica acompanhou-me desde que saí do avião, em Van, e iniciei a viagem de carro até Dogubeyazit. As aldeias, as gentes, a música e até a língua, tudo é muito distinto da Turquia que eu conhecia. Esta é uma zona maioritariamente curda, e a proximidade com o vizinho Irão sente-se tanto nos costumes da população, como na quantidade de tanques de guerra apontados para a fronteira, que avistamos ao longe. Dada a sua posição geográfica é um local de ténue estabilidade, pois está muito militarizada e as paragens para mostrar identificação são constantes. Fazíamos o nosso melhor sorriso para os militares que espreitavam para dentro da carrinha.

E ali estávamos nós em frente do homem que se intitula dono do ponto mais alto da Turquia. Entrámos na sua carrinha em Dogubeyazit, pequena cidade situada no planalto seco que circunda o monte Ararat. Após 2 horas de caminho, chegámos à aldeia de Eli que se encontra a 2200m, onde iniciámos a nossa ascensão para o campo 1, instalado a 3340m. Ao começarmos tranquilamente a caminhada, cruzamo-nos com os aldeões que vivem nas aldeias circundantes, pastores na sua maioria. Passam por nós crianças que tentam vender leite de cabra. Ganham uma sanduíche e correm pelo trilho poeirento. Meninas aparecem com bonecas de trapos, cabelo seco do pó e do sol, tez escura de quem vive ao ar livre, olhos profundos e sinceros de criança. Afastámo-nos a sorrir.

Chegámos ao campo 1 a meio da tarde e procurámos o melhor local para montar a nossa tenda, rodeada por muros de pedra para as proteger do vento. O terreno pedregoso rapidamente fica pintalgado de cor de laranja das tendas. Logo de seguida, subo um pouco para apreciar o cenário, pois gosto de ver o efeito que tem o acampamento, a sua disposição, o local das refeições e a tenda cozinha. Afinal vai ser a nossa casa por uns dias e quem não gosta de ter a sua casa arrumada!

A hora das refeições é quando o grupo mais confraternizava e os nossos amigos turcos, através das refeições saborosas que confeccionavam, tornavam esta hora numa verdadeira festa. Seis mesas alinhadas olhando o Irão enchiam-se de iguarias turcas que agradavam todos os paladares.

Grupo curioso o nosso. Búlgaros e belgas. Os búlgaros trouxeram as mochilas cheias de comida, que se tornaram desnecessárias dada a excelente qualidade da que nos era servida. Traziam também grandes câmaras de filmar para fazer uma reportagem. Começámos a apelidá-los de bardos, dado que qualquer momento era bom para começarem a cantar. Acho que ouvimos um bom repertório da música tradicional dos Balcãs. Os belgas traziam consigo o romance Ararat, de D. M. Thomas, que atravessa um período que vai da Rússia do século XIX à Nova Iorque de hoje e o enredo, que começa com a visita do poeta russo Sergei Rozanov a um descendente arménio na cidade de Gorky, envolve o leitor com uma fantasia complexa e brilhante. Foi essa fantasia que os trouxe até esta montanha. É certo que era notória a falta de conhecimento de montanhismo por parte daqueles simpáticos belgas, mas também não deixava de ser evidente a forte vontade em realizarem um sonho.

Tendas instaladas em socalcos, protegidas por pedras, na ascensão do monte Ararat na Turquia.
Tendas montadas numa área inclinada e pedregosa.

O dia seguinte aproximou-nos um pouco mais. Foi um dia calmo, em que subimos ao campo avançado e regressamos ao campo 1, para que o nosso organismo tivesse oportunidade de se habituar à escassez de oxigénio que se faz sentir com o aumento de altitude, provocado pela diminuição da pressão atmosférica – a falta desta habituação provoca a chamada doença da altitude. Este processo, em que existe um aumento de hemoglobina no sangue para que a quantidade de oxigénio transportado seja maior, chama-se aclimatação. Convém que tudo seja tranquilo e a um ritmo lento. Por isso, foi um dia de conversa, histórias de viagens anteriores e, claro está, canto. Muito canto búlgaro! À noite, as tendas messe iluminadas mostravam outro encanto ao acampamento, e foi debaixo daquele céu de mil estrelas que repousámos e recuperámos energias para o dia seguinte.

– Rafa! És mesmo tu? – O seu sorriso não me engana! O meu companheiro do Kilimanjaro desce pelo trilho seguido de um enorme grupo de espanhóis. O marinheiro que se tornou num montanheiro ali estava para mais uma ascensão. Que surpresa tão boa reencontrar aquele amigo tão pitoresco.

O nosso grupo dirigia-se para o campo avançado, localizado numa zona onde a montagem da tenda é mais complicada. Ficámos encarrapitados numa pequena área inclinada que implicava cuidado extra ao sair da tenda. A escuridão do céu anunciava trovoada, e em poucos minutos o vale é varrido por uma chuva forte; como se de um espectáculo se tratasse, a minha atenção foca-se na luz etérea, no som dos trovões, na fúria do vento, na capa de água que dança perante os nossos olhos. Estaria Deus a lançar um novo dilúvio sobre a Terra? Afinal éramos apenas espectadores e a trovoada dirigia-se para leste. A algumas horas da ascensão o grupo mostrava-se mais cabisbaixo porque a meteorologia é sempre determinante no nosso sucesso.

Despertámos às 4 horas da manhã e depois de um breve pequeno-almoço, iniciámos a subida. Eu e o Artur fazíamos a ponte entre os dois grupos. À frente ficaram os que têm mais dificuldades, os belgas; atrás os búlgaros. Frontais ligados, seguimos a um passo lento. O trilho é bastante pedregoso o que dificulta a progressão e a atenção tem que ser redobrada. A certa altura começo a ouvir um burburinho, pois os búlgaros estão a impacientar-se. É certo que o ritmo tem que ser lento, mas estava a impor-se uma lentidão tal que para espíritos mais inquietos era difícil acompanhar. Ia connosco um guia auxiliar que a pedido de Ercan, o nosso guia, segue com os mais rápidos. É melhor assim! Quem estava a “atrasar” o grupo fica ainda mais nervoso, pois sente-se “culpado” e assim torna-se muito mais difícil avançar. Ficámos para trás. É importante haver alguém a fechar o grupo. Depois de amanhecer o cansaço já é grande e Ercan decide que eu, o Artur, Koen e Jan, devemos avançar. Naquele momento já não tem a certeza que os mais lentos cheguem ao cume e isso também iria pôr em causa a nossa ida. Poder avançar ao nosso ritmo dá-nos ânimo e em pouco tempo conseguimos alcançar o restante grupo. Encontrámo-nos mesmo à chegada do glaciar, avistando o cone quase perfeito do pequeno Ararat. Colocámos também os nossos crampons que nos ajudariam a progredir no gelo. Fazia-se sentir um vento frio e cortante, mas ao avistar o nosso objectivo tudo parece mais fácil: os músculos respondem doutra maneira, as pernas tornam-se mais leves, os pulmões aumentam de tamanho e os planaltos da Anatólia e vales do Irão encantam-nos o olhar. E é assim que sob a bandeira da Bulgária tiro uma fotografia nos 5165m do monte Ararat.

Montanhistas a caminhar sobre o gelo junto ao cume do monte Ararat.
Chegada ao cume do Monte Ararat.

Iniciámos o regresso ao campo base, mas sem tempo para procurar vestígios da Arca de Noé. A descida pode ser tão ou mais penosa que a subida e a atenção deve ser redobrada. Na refeição dessa noite deliciámo-nos com um bolo de chocolate para comemorar o dia. Nem todos subimos ao cume, mas foi sem dúvida para todos uma bela aventura.