Bem-Vindos ao Rio de Janeiro! A cidade maravilhosa.

A suave descida em direcção ao aeroporto, faz-se sobre uma paisagem única e deslumbrante. Entre montanhas dos mais variados formatos, favelas que enchem as encostas dos montes, um mar de prédios que se entrelaça ao sabor da geografia e um trânsito verdadeiramente infernal, nós parecíamos duas crianças a olhar pela janela do avião. Tínhamos uma missão: queríamos ver bem de perto o Cristo Redentor e o Pão de Açúcar.

Deixado para trás o aeroporto, voltamos a sentir sobre a pele a força do verão. No Rio o calor é mais parecido com o que estamos habituados em terras lusas. Podemos até reconhecer que há alguma humidade, mas nós já nem a sentíamos – há uma diferença abismal com o calor húmido da Amazónia, por onde andamos várias semanas, e aquele que se sente na cidade carioca.

Já com bilhetes reservados para o sambódromo, a nossa expectativa para o Carnaval era muito elevada. Além de estamos a falar do maior evento do mundo, que mexe com milhões de pessoas e ainda mais de euros, há também qualquer coisa de contagiante e místico com a grande folia em torno do Carnaval do Rio de Janeiro. Basta sair de casa para desde logo se ouvir Samba e rios de gente a saboreá-lo. São milhares de pessoas que se cruzam à nossa frente, com estereótipos que remetem a nossa curiosidade para as meias diversas nacionalidades, mas que só se afirmam como “gringos” pela forma como dançam: o samba não está no pé. Em boa verdade há samba em todo o lado, cheio de pessoas com um gingado fabuloso e um sorriso genuíno que rasga as suas faces, em resultado de uma alegria incontrolável. Acabamos por participar em vários Blocos chamados “trios eléctricos” – caminhões adaptados com aparelhos de sonorização para apresentar música ao vivo –, onde várias pessoas cantavam para uma multidão, algumas vezes quase em êxtase, que nos seguia pelas monumentais avenidas.

Foram três dias de grande folia até chegar ao momento pelo qual ansiávamos e que desde longa data passou a fazer parte do nosso pensamento: o grande desfile das escolas de samba no Sambódromo do Marquês de Sapucaí. No nosso caso, assistimos ao desfile de segunda-feira, dia 20 de Fevereiro, onde participaram as escolas de São Clemente, União da Ilha, Salgueiro, Mangueira, Unidos da Tijuca e Grande Rio.

Decidimos ir cedo para o recinto porque não havia lugares marcados e a enchente estava há muito anunciada. Seguiu-se uma longa espera até que as portas do recinto fossem abertas, facto que permitiu trocar várias impressões com diferentes pessoas e até conhecer uma família profundamente fã da escola da Mangueira. Tratava-se de uma família oriunda de uma região fora do Rio de Janeiro, que estava a cumprir o sonho de uma vida e para o qual tive de trabalhar quatro anos. Estamos a falar de quatro anos de algum sacrifício para economizar cerca de 2700 reais (aproximadamente 1300 euros): o preço pago por 5 dias de alojamento em Copacabana nestes dias. No meio da conversa acabaram por nos oferecer casa na zona sul do Rio, mas nós, uma vez mais, já estávamos acolhidos por um couchsurfer. Durante a nossa estada na cidade carioca ficamos alojados nos Recreios dos Bandeirantes, um bairro nobre localizado junto à conhecida Barra da Tijuca e de algumas das melhores e mais relaxantes praias do Rio de Janeiro.

Frederico no Sambódromo do Rio de Janeiro
Frederico no Sambódromo.
Sambódromo do Rio de Janeiro
O sambódromo está instalado na Avenida Marquês de Sapucaí.

Mas voltemos à noite do desfile, que é o que mais interessa. Modéstia à parte, há que reconhecer alguma sorte com o lugar que escolhemos: um local mesmo a meio, onde há o recuo da bateria, o que significa algum tempo extra de espectáculo, pois os músicos necessitam parar um pouco enquanto o desfile continua. A zona onde nos encontrávamos encheu muito rapidamente mas, ainda assim, deu tempo para conhecer todas as pessoas que nos rodeavam. O espectáculo começou lá longe, mas a agitação e expectativa eram tão elevadas  que toda a gente se levantou num salto de alegria e êxtase.

Para as escolas desfilarem no sambódromo, têm de cumprir uma série de regras de qualificação, entre elas, a de entrar no espaço no horário definido e sair após uma hora e vinte e dois minutos. Quando assim não é, começam a perder pontos. De qualquer modo houve um atraso com o início do espectáculo, devido a contingências do canal televisivo responsável pela cobertura – no caso a Globo –, pois, imagine-se, estavam a acabar de emitir uma telenovela!

A escola de São Clemente começou com toda a força. A nossa boca caia de espanto, cada vez que passava um carro alegórico e pulávamos quando víamos as “popozudas” a desfilar. Inacreditavelmente todas as escolas saíam no tempo estipulado da arena e a escola seguinte estava logo preparada para entrar. Depois da União da Ilha (que representou muito bem o Reino Unido), seguiram-se as escolas mais aguardadas da noite: a Salgueiro e a Mangueira. Uma verdadeira festa, onde toda a gente saltava, cantava e aplaudia efusivamente a performance destas duas escolas. Da nossa parte não havia propriamente preferências; apenas desejávamos que chegasse ao pódio uma das escolas que tivéssemos visto. Tivemos sorte: a escola que se seguiu, os Unidos da Tijuca, foram os grandes vencedores na edição 2012. Não achamos que a música fosse a melhor de todas, mas há que reconhecer o grande arrojo dos seus carros alegóricos.

Depois da grande vencedora, a Grande Rio – última escola a desfilar naquele dia – trabalhou um tema baseado no carnaval do ano anterior, pois dias antes sofreu um grande incêndio nos seus armazéns e viu-se forçada a preparar tudo de novo. Tratou-se de um tema onde foi encarnada a “superação das dificuldades”, ou seja, algo que tem muito a ver o incidente ocorrido. Entre outros, trouxeram ao desfile o Ronaldo, conhecido entre os brasileiros como “o fenómeno”; o Lula da Silva, durante muitos anos analfabeto; o David e o Golias; e os Judeus, exemplo de grande superação no pós guerra.

Depois de uma noite memorável que se estendeu até de manhã, chegamos a casa com um sentimento de missão cumprida. O Carnaval do Rio marcou-nos profundamente, pelo que não querendo desrespeitar outras experiências que já tivemos oportunidade de viver ao longo das nossas vidas, temos que reconhecer que em termos de espectáculo, esta foi das melhores, senão mesmo a melhor de todas. Várias escolas de samba como milhares de pessoas a desfilar, a dançar e a tocar o mesmo ritmo, onde se juntam quase cem mil pessoas na assistência em quase delírio, é verdadeiramente arrepiante.

No dia seguinte, terça-feira, a rua continua a chamar pelas pessoas para o encerramento desta grande festa. Embora não o tenhamos feito muito cedo, chegamos, ainda assim, a tempo de conhecer o carnaval nocturno das praias de Copacabana e Ipanema, também ele com uma alma muito própria, mas muito diferente do que se faz mais para o centro – a zona da Lapa é um bom exemplo dessa diferença. Nas imediações das praias as pessoas são outras, a música é outra e o clima que paira no ar é também ele outro. Parece-nos uma festa menos genuína e mais comercial, pelo que não temos dúvidas sobre a nossa preferência. Estamos muito mais sintonizados com a festa tradicional, onde o samba contagia pessoas de todos os credos e raças, imbuídos do mesmo ritmo e espírito. Assim, e tal como fizemos nos dias anteriores, regressámos à Lapa. Talvez a comparação seja algo excessiva, mas arriscaríamos dizer que o carnaval da Lapa é como as festas do Santo António de Lisboa, em Alfama. Encontramos algumas pontes entre as duas celebrações, se bem que no Rio em ritmo de samba e em espaços de muito maior dimensão.

O carnaval no Brasil foi uma experiência fantástica, a qual não vamos esquecer até ao fim das nossas vidas. Agora que já conhecemos o Rio do Carnaval, vamos dedicar o nosso tempo a conhecer a cidade do Rio de Janeiro. São inquestionavelmente rios diferentes; rios que desaguam em mares muito próprios.

homem no carnaval da Lapa
No Bairro da Lapa a festa é mais tradicional.
Carnaval na Lapa no Rio de Janeiro
O samba contagia pessoas de todos os credos e raças.