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De Château em Château: o vale do Loire

Até ao renascimento, as cortes francesas eram itinerantes. A aristocracia viajava de castelo em castelo, a caçar veados e amantes como se não houvesse amanhã (é fácil pensar assim quando se tem uma esperança de vida de quarenta anos).

Mas ser itinerante não é o mesmo que ser tolo, e foi no vale do Loire que os nobres construíram mais palácios, transformando velhas fortalezas militares em retábulos de bem-aventurança. Ao longo de todo o renascimento, a corte foi seduzida pelo clima ameno, o rio tranquilo, os bosques frondosos e as virtudes dos melhores vinhos de França. Eram bons tempos, para quem não passasse o dia a cavar beterrabas.

Hoje em dia você não tem que fazer parte da dinastia de Anjou para se divertir tanto como Godofrevo V. O Loire fica a curta distância de Paris, mais ou menos a uma hora de TGV. O autor destas linhas ficou instalado em Tours, que recomenda muito: é uma cidade burguesa, digna de Honoré de Balzac — o filho dilecto da terra. Tem excelentes restaurantes, um belo jardim de influência japonesa e uma catedral famosa. Mas se preferir instalar-se em Orleans ou Blois também não encontrará razões de queixa.

Assim que chegar dirija-se a um posto de turismo para planear os seus passeios diários. Tipicamente duram quatro ou cinco horas e permitem-lhe visitar três palácios, o que não dá muito tempo para grandes confraternizações. Se tiver tempo, talvez prefira alugar um carro.

É impossível descrever todos os castelos do Loire. Por isso, deixamos aqui uma selecção de meia-dúzia, que se destacam ou pelos jardins, ou pela arquitectura, ou pela decoração do interior, ou por estarem associados a histórias ou a personagens que vai reconhecer.

Azay-le-Rideau

Um dos mais belos e mais visitados da região. Parece flutuar no rio e está magnificamente decorado. Possui um jardim agradável, que será melhor apreciado a partir das janelas do palácio.

Chenanceau

Outra celebridade. Chenanceau é tratado como “o chateau das senhoras”, pela importância que estas tiveram na sua construção. Aqui viveu Diane de Poitiers, amante de Henrique II, até ser expulsa pela ciumenta Catarina de Medicis. Os dois jardins geométricos e a vasta galeria construída sobre o rio irão deixá-lo igualmente enciumado.

Chambord

Uma extravagância que nasceu de um pavilhão de caça, Chambord aparece ao visitante subitamente, após uma longa travessia por um bosque. Inaugurado por Francisco I, tem 400 quartos, 365 lareiras e 85 escadas. O rei só usou esta residência durante dois meses. Não perca as escadas de Leonardo da Vinci.

Le Clos Lucé

Por falar nisso, foi no pequeno Chateau de Clos Luce que o génio do renascimento acabou os seus dias. Leonardo era um hóspede ilustre de Francisco I, que lhe emprestou esta agradável moradia. Não espere grandiosidade nem salamaleques.

Villandry

Com um dos mais belos jardins do mundo, no qual se misturam flores com legumes em extraordinário abandono, Villandry é imperdível. Um prodígio de geometria e organização, com vários panoramas que põem o visitante comum a hiperventilar.

Cheverny

Construído um pouco mais tarde que os demais, Cheverny não possui qualquer traço da renascença. No entanto tem uma fachada impecável, está belissimamente decorado e, last but not least, serviu de inspiração ao palácio do amigo do Tintin, o impagável capitão Hadock. Não deixe de ver os 100 cães de caça que ainda habitam nas imediações.

Esta é apenas uma pequena selecção. Haveria outros dignos de referência: Angers, Amboise, Blois, Chaumont, Saumur, por exemplo. Nos postos de informação encontrará mais detalhes que lhe permitirão escolher os que melhor combinam com o seu temperamento.

Finalmente, aqui fica esta nota: uma visita ao Loire não é apenas uma visita aos chateaux do Loire. É possível jantar sublimemente todos os dias, e para quem tenha tempo, é fácil organizar ao almoço piqueniques imperdíveis com os produtos da região. Nunca deixe que um jardim italiano arruíne a sua tábua de queijos de cabra com um Ackerman Chadornnay 2004 bem fresquinho. Pode brindar aos velhos aristocratas do ancient regime: eles iriam compreender.

Castelo Azay-le-Rideau.
© Benh LIEU SONG ( CC BY-SA 2.0 )
Castelo chenonceau.
© Benh LIEU SONG ( CC BY-SA 2.0 )

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  • Excelente reportagem. Estive este ano em Chenonceau e em Chambord, fiquei impressionada com a capacidade dos franceses de "reconstruirem" a história dos seus catelos. Agora falta-me os restantes...já estão na minha lista.