Quando rumámos de Banguecoque para o sul da Tailândia, estávamos longe de imaginar que as chuvas se abateriam na região com tanta intensidade, facto que nos levou a repensar a viagem e encontrar uma alternativa ao percurso inicialmente delineado.

Acabou por ser uma decisão fácil e não demorou para voarmos em direcção a Myanmar, país governado há décadas por uma junta militar e onde só recentemente foram feitos alguns esforços no sentido de abrir as portas ao turismo. Atribuíram-nos um visto de 28 dias e foi esse o tempo que decidimos permanecer.

Chegados a Yangon, antiga capital do país, rapidamente percebemos que os três dias inicialmente planeados para visitar a cidade seriam excessivos, pelo que acabámos por ficar apenas um. Para quem nos tem vindo a acompanhar, já deverá ter percebido que não somos os maiores fãs de grandes cidades.

Mas se a cidade não nos atraía o suficiente para permanecermos algum tempo, não quer com isso dizer que não tenha os seus atractivos e locais que merecem uma visita. Acordámos por isso bem cedo, de modo a darmos início à descoberta. Para começar ficámos bastante surpreendidos, já para não falar na suave dor nos maxilares, com o número de sorrisos dado pelas pessoas e, obviamente, também retribuídos. Aqui todos abanam as mãos para cumprimentar os outros, sempre acompanhado de um “mingalaba” – uma espécie de “olá” que em tradução literal significa “estás feliz?”.

Grande movimento de pessoas a circular numa rua de Yangon, já durante a noite.
Movimento habitual numa rua de Yangon.

O reconhecimento da cidade, em certa medida traduzido numa espécie de uma aventura, iniciou-se com a tomada de um autocarro que, ao embrenhar-se pelo meio de um trânsito caótico, frequentemente circulava em estradas de três faixas, mas onde era habitual encontrarmos seis filas de automóveis. É como se estivéssemos numa competição para ver quem chega primeiro à meta. Mas o melhor estava para vir… A certa altura reparámos num autocarro repleto de pessoas que, imaginem, não tinha travões. Ou se os tinha, convenhamos, funcionavam muito mal. O único meio para imobilizar aquele autocarro, já muito envelhecido pelo tempo, era através do cobrador de bilhetes que saltava porta fora, com o veículo ainda em movimento, de modo a colocar um pedaço de madeira debaixo de uma das rodas da frente. Tudo feito de forma cíclica e no chamado pára-arranca. Ficámos de boca aberta!

Na baixa da cidade percorremos alguns dos mercados locais que, com as devidas diferenças, certamente iriam fazer lembrar-vos alguns dos tradicionais mercados portugueses de há uns bons anos. Um dos que nos chamou particular atenção é um enorme espaço dedicado ao comércio de pedras preciosas, onde as joalharias ou tradicionais bancas vendem minerais explorados em Myanmar, como é o caso do jade, da safira ou do rubi.

Já perto do final da tarde acabámos por visitar o pagode Shwedagon – conhecido localmente como Shwedagon Zedi Daw -, o maior templo deste tipo no país. Situado na serra de Singuttara, trata-se de um espaço impressionante, quer pelo tamanho, quer pela plenitude de todo o conjunto de templos. É um daqueles lugares que tira o ar a qualquer um! Para além disso, e já que o pagode está coberto de ouro, o pôr-do-sol que ali se faz sentir é diferente e bem interessante: as tonalidades e brilhos alteram-se a cada instante, à medida que o sol vai caindo sobre o horizonte, quase como que se de um espectáculo psicadélico se tratasse. Foi um bom final de dia, sobretudo para quem já estava cansado de tanto andar, como era o nosso caso.

Frederico e Catarina no pagode dourado de Shwedagon, em Yangon.
Pagode Shwedagon, em Yangon.
Buda dourado no pagode Shwedagon em Yangon, Myanmar.
Buda no pagode Shwedagon.

O jantar de um “peixinho” assado, que nos pareceu tão apelativo, acabou por ser uma enorme desilusão e difícil de engolir, já que besuntaram o animal com um molho demasiado doce para o nosso paladar – é o que dá estar habituado a comer um bom peixe grelhado, apenas temperado com um fio de azeite. A fome fez com que terminássemos a refeição, mas ficámos vacinados e em estado de alerta para futuros episódios. Foi mais uma experiência de viagem, um saber adquirido, uma estória que recordaremos deste périplo a que chamamos projecto Sudoeste Asiático.

No dia seguinte, quase a acompanhar o raiar do sol, dirigimo-nos à estação de autocarros de Yangon, tendo como principal objectivo encontrar transporte para o lago Inle. Informámo-nos dos horários, comprámos bilhete e voltámos algum tempo depois, já que o autocarro só saía no período da tarde. Chegada a hora, aproximámo-nos do veículo indicado e quando entrámos nem queríamos acreditar: entregaram-nos um medicamento para tomar caso ficássemos enjoados, ofereceram-nos uns bombons, e ainda uma escova e pasta dentífrica para a higiene oral. Inicialmente ficámos meio desconfiados e até perguntámos se teríamos de pagar mais alguma coisa, mas não. Esta espécie de kit de viagem faz parte da hospitalidade birmanesa para este tipo de viagens, bem como da vontade em querer sempre o bem-estar dos passageiros.

O lago Inle, situado nas montanhas do Estado Shan, no leste de Myanmar, é o segundo lago em área do país e raramente ultrapassa os 4 metros de profundidade, mesmo na estação das chuvas. Estima-se que nas suas margens existem mais de 180 aldeias e cidades, maioritariamente povoadas pela etnia Intha – os filhos do lago.

A viagem arrastou-se por 11 horas e chegámos a Inle por volta das 5h da manhã. Estava um frio desgraçado, para o qual não estávamos habituados e minimamente preparados – parecia que nos tinham transportado para uma serra transmontana. O desconforto era tal que acabámos por sair do autocarro ainda embrulhados nos sacos cama.

A situação não parecia a mais animadora mas, como tínhamos de tratar de arranjar um local para ficar, lá nos decidimos e começámos na busca de um espaço agradável, com bom preço e limpo. Rapidamente concluímos que no lago Inle é tudo caríssimo, pois não estão ainda muito preparados para receber certo tipo de turismo, especialmente do tipo mochileiro como era o nosso caso – como se diz em bom português, o chamado “turismo de pé descalço”. Depois de alguma procura, acabámos por nos contentar com um espaço onde nos pediram 20 dólares, já que as opções mais económicas não eram assim tantas.

Homem de etnia Intha a fumar junto ao lago Inle.
Homem de etnia Intha.
Alunos de uma escola nas imediações do lago Inle.
Escola nas imediações do lago Inle.

O resto do dia foi passado a conhecer o ambiente que se vive na região, quer com os passeios que fizemos a pé nas imediações do lago, quer através da viagem de barco que nos permitiu ver tudo a partir de uma perspectiva bem diferente. O lago Inle é na verdade um local surpreendente! Começando com os pescadores nas suas tarefas diárias, passando pelos fervilhantes mercados – um flutuante – ou casas sustentadas por grandes estacas, e acabando nas pequenas oficinas dedicadas ao fabrico de tabaco, têxteis, carteiras ou outros artefactos, tudo é muito genuíno e culturalmente interessante. E depois há ainda as pessoas! São imensamente generosas, demonstram ser felizes e não deixam ninguém indiferente ao seu sorriso luminoso.

Vários barcos num ancoradouro de um porto numa cidade do lago Inle.
Ancoradouro no lago Inle.

Esperavam-nos agora mais alguns dias para contemplar o lago e conhecer as montanhas que o rodeiam, mas isso fica para a próxima publicação. Até lá!