Depois de estarmos em terra de Mapuches, o único povo que nunca se rendeu a qualquer luta e ainda hoje lutam pelo que é seu, chegamos ao Norte do Chile, que é só a zona mais árida do planeta. Aqui existe uma linda e pequena terra chamada San Pedro de Atacama: um belo Oásis no coração do deserto mais seco do mundo. Durante o dia faz um calor tremendo e à noite um frio considerável, condições que um bom saco cama e uma tenda não consigam resolver.

No primeiro dia da nossa estada andámos a vaguear pelas curtas ruas da cidade, onde recolhemos informações para decidirmos o que fazer durante os próximos dias. Aqui, o que não falta é o que fazer. É muito e de qualidade inigualável!

Depois de 1000 kms à boleia, estamos cheios de boa disposição. Aproveitando esta boa onda, na manhã do dia seguinte alugamos uma bicicleta e metemo-nos no caminho que leva ao Valle de la Luna: um parque nacional chileno que é o sítio mais inóspito do mundo. Como o próprio nome diz, parece que estamos na lua; em outro planeta. Vimos paisagens maravilhosas, feitas pela Pachamama – Mãe Natureza – há mais de 22 milhões de anos. São lugares maravilhosos que desde aqueles tempos teimam em não se modificar.

Durante este passeio de bicicleta, fomos fazendo algumas paragens de forma a melhor apreciar este magnífico lugar quando eis que, numa destas paragens, a nossa estrelinha da sorte voltou a brilhar. Até no deserto já a encontramos! Mais ou menos a meio do percurso, onde já estávamos os dois com a língua de fora, parámos para beber água. Surpreendentemente aparece um senhor, de seu nome Ariel, a perguntar-nos para onde nos dirigíamos. E não é que seguíamos todos na mesma direcção!? “Ponham as bicicletas na caixa. Vamos embora que vocês vêm connosco”, disse. Sentimos expressar-se na nossa face um sorriso de orelha a orelha. Dentro da carrinha já se encontravam o filho do senhor Ariel e a Cristina, sua sobrinha. Colocamos as bicicletas na parte traseira da pickup e lá fomos os cinco. A família, muito simpática e acima de tudo muito bem-humorada, integrou-nos no resto do seu passeio como de fôssemos da própria família. Foi assim que subimos a duna e observamos um fantástico pôr-do-sol, onde se vêem pormenores e mudanças de cor na paisagem difíceis de descrever. Absolutamente inesquecível. Habitualmente, depois disto quer ver-se a lua, sendo noite de lua cheia. Esperámos… Esperámos e nada. Decidimos então regressar, pois tínhamos de entregar as bicicletas até às 21h (embora já soubéssemos que à partida nunca o iríamos conseguir fazer).

Depois de entrarmos no carro e percorrermos alguns quilómetros, não é que a lua aparece!? Pois é… Primeiro uma luz brilhante e forte por detrás da montanha, para depois, pouco a pouco, aparecer em todo o seu esplendor e carregada com os seus pormenores femininos. Por aqui, dizem que nesta zona, devido ao seu posicionamento, vê-se a lua bem mais bonita. Verdade ou não, o certo é que nunca tínhamos visto uma lua não grande como esta. E embora tenhamos feito várias fotografias, se existem momentos onde por mais perfeita que seja a imagem não é possível registá-los, este é um deles. No final, embora todos estivéssemos radiantes com o resultado desta aventura, nós, em particular, sentíamo-nos muito felizes por termos conhecido esta família de chilenos super bem-dispostos e amigos.

Rua em San Pedro de Atacama
San Pedro de Atacama
Nascer da lua no Atacama
O maior nascer da lua alguma vez visto

Quando chegamos a casa, o “ratinho” na barriga já era maior do que o sono que insistia em fechar as nossas palpebras. Depois de fazermos algo rápido, mas eficaz, seguimos direitos para cama. O dia seguinte amanheceu quente, pois às 8h da manhã já não se podia estar na tenda. Como nos sentíamos particularmente cansados, resolvemos ficar durante a manhã pelo parque de campismo. Fizemos de tudo um pouco: ligámos para casa, tentámos resolver assuntos pendentes, etc… Depois de completarmos os nosso afazeres, quando voltamos ao centro de San Pedro, apercebemo-nos que se comemorava o dia de Nossa Senhora de Guadalume. Demos com uma procissão em sinal de sua adoração, onde homens, mulheres, pequenos e graúdos, todos vestidos a rigor, tocavam e dançavam numa atitude quase profana; algo muito diferente do que tínhamos visto até então.

Embora muito raramente nos sintamos tentados a fazer um tour organizado, desta vez achámos melhor faze-lo. Fomos à Laguna de Cejar, que fica a 30 kms da cidade. Ainda nos passou pela cabeça fazer o percurso de bicicleta, mas tal seria um verdadeiro suicídio. Laguna de Cejar é um lago com uma composição muito próxima do mar morto, ou seja, tem demasiado sal. Significa que quando entramos dentro de água, flutuamos automaticamente, mesmo que não queiramos. Possibilidade de afogamento, nula! Ficámos verdadeiramente impressionados quando nos afastamos e nos pusemos, como se costuma dizer, fora de pé. Uma das curiosidades desta visita passou-se quando, ao entrar dentro de água, o Fred pediu para continuar, pois queria tirar umas fotografias. Ao meu lado oiço: “Olá, são portugueses?”. Era o André.

Depois de deixar o lago fomos obrigados a passar o corpo por água doce, pois estávamos literalmente cobertos por uma enorme camada de sal. Infelizmente, o duche improvisado de garrafão não adiantou de muito. Seguimos para outros dois lagos simétricos, separados por cerca de 10 metros entre si. Da tentativa em saber qual a origem destas formações, foram-nos dadas duas explicações que até a data ninguém sabe qual delas é a verdadeira: a primeira, defende que os lagos são o resultado de crateras provocadas por meteoritos, que depois se encheram de água; a segunda, aponta para grandes escavações efectuadas por companhias petrolíferas, que com o tempo resultaram na criação de grandes buracos. De qualquer modo, e indiferentemente da versão correspondente à verdade, o que interessa é mesmo o banho: a água estava “fresquinha” e a quantidade de sal proporcionou uma experiência pouco repetível. Aqui, nada melhor que um salto para a água. É tão engraçado ver a reacção as pessoas que estavam connosco; todos a querer uma foto a saltar para o lago, incluindo nós.

Mas o dia não estava terminado. Ainda fomos ao Deserto de Sal, onde todos se deslumbraram e entreteram com fotografias artísticas, mais uma vez, nós incluídos. Tínhamos à nossa espera um maravilhoso pôr-do-sol e um Pisco que, como anteriormente já dissemos, é um licor. Digamos que é o moscatel aqui da zona. Foi um excelente momento para conversar e brindar… Assim se faz uma família de pessoas que entram e saem dos capítulos da nossa viagem. Uns permanecem, outros não; uns voltaremos a encontrar, outros serão apenas uma memória. Durante a tarde conhecemos o André, que já havíamos referido, e o Pelli, um rapaz dinamarquês. Ficamos todos amigos.

Já de noite, depois de um grande banho e da barriga cheia, encontramo-nos novamente, mas desta vez com com muito mais gente: pessoal da Irlanda, Chile, Argentina e França. Juntamo-nos debaixo de uma árvore, junto a uma fogueira e ao som de uma viola. Enfim, uma boa noite de convívio.

Valle de la Muerte no Atacama
Dunas para a prática de Sandboard no Valle de la Muerte

Mas antes de finalizar o episódio Atacama, ainda nos faltava mais uma aventura: o sandboard! Guardado para o terceiro dia, o sandboard teve de se fazer num dia quente, entregue aos caprichos e à vontade do deserto. Montados nas bicicletas e agarrados às pranchas – iguais às do snowboard –, pedalamos até ao Valle de la Muerte. O nome não poderia ter sido mais bem escolhido, pois trata-se de um local completamente ermo, muito seco, cheiro de montanhas rochosas e dunas, onde não existe vida alguma. Foi junto a uma destas dunas que paramos e nos lançámos à areia. Inexperientes, caímos imensas vezes, sentimos correr a adrenalina nos nossos corpos e gritámos de alegria, pois nunca antes havíamos experimentado sandboard ou snowboard. A duna estava por nossa conta. Subimos algumas vezes e descemos outras tantas. Refiro-me a poucas, porque subir uma duna tão grande ao meio dia, para mais no meio do deserto, demora cerca de vinte minutos para desfrutarmos “apenas” de um, na descida. De qualquer forma, valeu todos os minutos e paragens que fizemos na subida. Foi uma experiência fantástica.

Em San Pedro de Atacama, enchemo-nos de pó, ficamos cobertos de sal e comemos muita areia. Da gratificante experiência ficaram, principalmente, as recordações e memórias que não iremos esquecer nunca, nunca, nunca. Um sítio para voltar!? Claro que sim!

E assim dizemos adeus ao Chile. Uma visita breve, mas enriquecedora.

Próximo destino: Bolívia; e continuamos ansiosos – como sempre – ou melhor, como nunca, pelo que se vai seguir. E mais não digo, perceberão o porquê!

Beijos e abraços.