Nuno Lobito, 47 anos, é reconhecidamente um nome grande da fotografia e um dos maiores viajantes portugueses de sempre. Em Novembro do ano passado, após muitos anos de insistência, resiliência e muita coragem, alcançou o seu grande objectivo de vida: visitar todos os países do mundo. Segundo o próprio, os 204 países visitados, incluindo alguns dos territórios não reconhecidos pela ONU, como é o caso do Sara Ocidental ou a Palestina, permitiram-lhe “fechar o mundo”.

Com 29 anos de profissão, o fotógrafo formou-se na ARCO e experimentou caminhos que o levaram do fotojornalismo à publicidade, contudo, em nenhum dos casos conseguiu atingir realização profissional e bem-estar emocional. A necessidade em passar a fronteira, não só física mas também mental, foi mais forte e determinante na partida à descoberta deste maravilhoso planeta a que chamamos Terra.

Viveu vários anos em Madagáscar e com tribos indígenas no coração da Amazónia. Conheceu pessoalmente o Dalai Lama e esteve nos locais mais inóspitos do planeta. Dos inúmeros países, das mais improváveis experiências e das centenas de milhares de quilómetros percorridos, chegaram-nos reportagens de grande qualidade, algumas vezes até perturbadoras, sempre com um cunho muito próprio e onde subliminarmente estão presentes as suas vivências e riqueza humana. Além das viagens e reportagens, Nuno Lobito tem ainda tempo para ser pai e marido, fazer programas de televisão, dar aulas em várias escolas e realizar palestras. De vez em quando há também espaço para a publicação de livros, o último dos quais “O Mundo aos meus Olhos”. Trata-se de um livro de edição própria, onde em apenas 150 imagens é possível empreender uma maravilhosa viagem através de 100 países.

Tendo a sua experiência de vida como um extraordinário exemplo do que melhor pode definir a essência de “um cidadão do mundo”, Nuno Lobito aceitou partilhar com os nossos leitores qual a sua visão do mundo, o que rege a sua vida e como a palavra “impossível” foi afastada do seu dicionário.

PSão 29 anos de viagens, caminhos, encontros e desencontros. Afinal como é que se iniciou esta grande epopeia? Como é que surgiram as viagens na tua vida?

RAtravés de uma grande sede de conhecimento que nos leva a querer e procurar mais. Tendo eu nascido num tempo em que não existia internet, desde muito cedo tive de me fazer ao mundo e percorrer a estrada. Só assim foi possível saber mais sobre o que está para além deste rectângulo chamado Portugal.

PAinda numa fase inicial deste percurso, viveste três anos em Madagáscar e cinco na Amazónia. O que é que motivou esta atitude? E porque não qualquer nós somos quilooutro lugar?

RAntes dos episódios que referes há muito para contar porque “o caminho faz-se a andar”. Não é também por caso que este vai ser título do meu próximo livro, onde desde logo vai ser possível compreender os passos e as circunstâncias que se encontram a montante de tudo isto, bem como outras histórias de vida que hoje são desconhecidas. Madagáscar, além de uma história interessante, é a consequência de ter conhecido o fotógrafo Philippe Gaubert. Conhecemo-nos num bar, em circunstâncias inesperadas, onde as nossas Leicas M6 bateram uma conta a outra. Com o decorrer do tempo acabamos por construir um estúdio de fotografia, ainda hoje a funcionar, chamado World Photography. A Amazónia surge do interesse em conhecer melhor a cultura do seu povo, mas sobretudo como resultado de uma Malária Falciparum que contraí em Madagáscar. Durante um dos períodos febris característicos da doença, obtive a seguinte visão: um índio, uma índia e um livro sobre índios. Passei tudo isto à prática e hoje sou casado há 11 anos com uma índia, a Carol; sou pai de um índio, o Angel; e o livro “Amazónia Oculta” está feito. Devemos, portanto, seguir o nosso caminho porque nós somos aquilo em que acreditamos.

PEm Madagáscar, essa variante grave da malária não te fez temer por um desfecho menos feliz. Achas que este tipo de situações contribui para alterar as prioridades que cada um estabelece na vida?

RObviamente que sim. No fundo, é o que já referi… Quando estamos abertos a uma energia cósmica, ao mesmo tempo que percebemos as mensagens remetidas pelo divino e pelo mundo, temos que mudar o nosso caminho. Foi na sequência desta experiência e mudança que segui para a Amazónia.

PViver cinco anos na Amazónia, longe de tudo e na companhia de tribos índias, com costumes tão diferentes dos que estamos habituados no mundo ocidental, é seguramente uma experiência que não esquecerás. O que é que isto contribuiu para o teu enriquecimento enquanto pessoa?

RBem, creio que o enriquecimento não foi só meu, mas também de todos os que se cruzaram comigo. Sabes? Quando um indivíduo vive com aquilo que tem, mesmo que muito frugal, e consegue aceitar quem é, consegue entender o que é a sociedade. Eu fiz apenas uma pausa, ainda que prolongada, para perceber quem era e qual o caminho que queria seguir. Neste processo a Amazónia foi perfeita porque permitiu-me passar por momentos de grande introspecção, dando seguimento à minha filosofia budista. Aprendi que temos que estar abertos ao caminho que se abre à nossa frente, perceber o que queremos e para onde vamos. A Amazónia foi magistral para eu aprofundar a minha verdadeira essência, enquanto pessoa e ser humano.

Nuno Lobito na Amazónia
Nuno Lobito com índios da Amazónia.

PDepois desta experiência, passaste a ver o mundo sob outra perspectiva?

RNão. Em verdade, eu comecei a perceber o mundo quando fiz a conversão ao budismo. Foi através desde processo que percebi realmente quem eu era, o que queria, para onde deveria seguir e o que é, afinal, este mundo.

PO início da “aventura amazónica” foi passado dentro de uma piroga, onde te deslocaste durante dois anos de aldeia em aldeia, algumas vezes não sendo até muito bem recebido pelas comunidades locais. Queres falar-nos um pouco deste período?

RPosso dizer que pelo simples facto de um indivíduo ser branco, o que desde logo remete para ideia do colonizador, implica avançar com algum cuidado e entrar muito de fininho. Numa situação conflituosa, onde se perca o controlo, eles não têm qualquer problema em “limpar”, também de fininho, o branco que chegou sabe-se lá de onde. É nestas coisas que se vêem os poderosos, os heróis e os tipos que “os têm no sítio”. Porque é assim: andar por ali dois anos, perdido no meio do nada, sem hotéis, casas ou o mínimo de condições, é mesmo muito difícil. Mas o que realmente importa, é que está feito.

PFoi também na Amazónia que encontraste a tua mulher. Foi fácil a aproximação, o casamento e convencer uma família índia das tuas boas intenções?

RPor respeito à privacidade da Carol e por questões pessoais, não comento a vida que levo com a minha mulher. Posso apenas referir que não tenho qualquer dúvida em como não voltarei a encontrar uma mulher tão boa companheira e que aguente este louco disciplinado, chamado Nuno Lobito. É que eu sou um tipo muito passado, mas sou mesmo assim. Está na minha génese.

PÉ curioso que em qualquer destes locais acabaste por deixar a tua marca. Em Madagáscar abriste um estúdio fotográfico e na Amazónia um pequeno ecoresort. Por onde passas, faz parte da tua natureza deixar algo para a posterioridade?

RDeixar uma pequena marca nos locais por onde passamos, faz parte do caminho. Aliás, digo até mais… Um dia, quando me transferir para o além, as pessoas vão-se lembrar-se de mim; daquele maluco, com uma enorme sede de conhecimento, que foi o primeiro português a pisar todos os países do mundo. Muitas das marcas que deixamos são, no fundo, a partilha e a experiência que se verifica com cada povo. É o dar e o receber. Há uma coisa que me dá um enorme prazer: a partilha das minhas vivências e longa experiência, não só com Portugal, mas também com o mundo.

PAcreditas que numa viagem há sempre o partir, mas também o voltar? Esta ideia de fechar o círculo e regressar ao ponto de partida faz sentido?

RNão. Nada disso! Essa é a pergunta típica que fazem ao Gonçalo Cadilhe, pessoa que, aliás, muito preso e respeito. Agora que falo nisto estou a lembrar-me do Gonçalo, ainda “puto” nestas andanças, ter estado comigo na Amazónia em 2000. É muito interessante ver o seu percurso a esta distância. De uma forma geral, eu acredito que faz sentido voltarmos aos locais onde sentimos que estamos em casa.

PHabitualmente como organizas as tuas viagens?

RTodas as viagens são programadas com alguma antecedência, até porque quando piso o lugar não quero, nem posso, estar a perder tempo com pormenores. Neste momento posso adiantar que já tenho o ano 2013 praticamente fechado, o que significa obrigatoriamente dispor de organização, metodologia e disciplina. Dentro de algumas semanas vou fazer o coast-to-coast, nos Estados Unidos. Em apenas 11 dias, são perto de 7000km a percorrer de carro entre Nova Iorque e Los Angeles, o que obriga a tiradas diárias com mais de 600km. Nestes casos é preciso garantir que há um mínimo de preparação para que nada falhe. De qualquer forma, também sou aquele tipo de pessoa que organiza para depois não respeitar. Quando não me sinto bem num lugar, vou à procura de outro. Respeitar totalmente, só mesmo os aviões.

PRetrocedendo um pouco à génese de tudo isto, qual é afinal a importância da fotografia na formação do viajante Nuno Lobito?

RAqui vão-me desculpar a minha falta de humildade, mas em primeiro lugar há que dizer que o viajante Nuno Lobito foi quem criou este conceito da fotografia de viagem, bem como as primeiras formações que se fizeram na área. Em Portugal, nada disto existia e muito menos as chamadas revistas de viagens. Havia a Grande Reportagem, onde se faziam excelentes peças de fotojornalismo, mas nada directamente relacionado com a viagem. Eu criei aquilo que desejava, ao conseguir criar uma nova linha de fotografia no mercado nacional, mas acima de tudo fi-lo onde me sentia bem. Acho que fiz a minha parte e hoje sinto-me feliz por fazer formação; passar aos meus alunos o que sei e mostrar-lhes o caminho.

PQuando entraste no ARCO para estudar fotografia, já havia uma decisão clara sobre o caminho que pretendias seguir? Sempre definiste como meta trabalhar como fotógrafo de viagens?

RNão, até porque não existia a hoje chamada “Fotografia de Viagem”. À data eu queria simplesmente ser um bom técnico. Só depois de ter dominado a luz em estúdio e ter feito outras coisas na área, é que me lancei para as viagens, mas tudo ainda no tempo da película e dos diapositivos. O ARCO foi o AEIOU para ser aquilo que sou hoje, facto que agradeço do fundo do meu coração ao José Soudo, meu professor e mestre.

Nuno Lobito no terreno

PNeste momento consideras-te um fotógrafo profissional que aproveita para viajar, ou um viajante que vive da fotografia?

REu sou acima de tudo um fotógrafo profissional que aproveita o exercício da sua profissão para viajar. Em parte também sou um viajante que vive da fotografia, mas só o sou em função dos anos de profissionalismo que já ficaram para trás. É difícil dissociar a fotografia das viagens, até porque eu sou um só. Talvez me defina como um fotógrafo viajante.

PFoi fácil vencer no complicado mercado fotográfico nacional, onde as oportunidades são escassas e muitas vezes reservadas só para alguns?

RNa resposta a esta pergunta, onde me dirijo especialmente aos “putos” que estão agora a começar, gostava de sublinhar a seguinte frase: “nós somos aquilo em que acreditamos”. É preciso ser persistente, focar os objectivos, lutar por aquilo que se quer e estar preparado 10 anos para levar com NÃOS. É assim que se vê quem é forte e está preparado para este mundo. Os fracos, esses que mudem… Sejam políticos, porque isso rende mais dinheiro. Agora que dá um imenso gozo fazer um “grande boneco” e poder partilhá-lo com o mundo inteiro, isso não posso negar. É o reconhecimento do nosso empenho e esforço.

PQuais são as principais dificuldades que tens encontrado ao longo dos anos?

RContinuar a vencer e manter-me nos 80%. É que chegar aos 100% pode até não ser muito difícil. Aliás, é uma meta onde já cheguei por várias vezes. Agora mantermo-nos nos 80% de forma estável, é que é só para alguns. Em termos de fotografia de viagem, o mercado português é muito pequeno; devem existir uns 20.000 fotógrafos para 10 publicações. Eu faço programas de televisão, workshops, livros, vendo reportagens, estou online, ou seja, é preciso perceber como é que o mercado está construído e percorrer o caminho em função disso. Temos que saber agarrar as oportunidades e ter personalidade. Um fotógrafo que não tem personalidade anda ao sabor do vento, coisa que em nada tem a ver comigo.

PTodas as viagens que realizas têm como principal objectivo a obtenção de um conjunto de imagens que potenciem a realização de reportagens e que possam contar a verdadeira história dessa viagem?

RPara mim, as reportagens são primeiro que tudo fotografias de que eu gosto. Se outros gostam e têm interesse, compram e pagam. Não sendo assim, é material que junto ao que tenho para vender há uns 20 anos e que ninguém quer. De qualquer modo, eu também sei que tenho targets que tenho que respeitar: a Caras ou o Fugas são apenas dois exemplos.

PDas viagens que normalmente fazes, há alguma que se possa dissociar da fotografia?

RNão. As viagens estão sempre ligadas à fotografia e não há nada que o possa mudar.

PComo é que as pessoas fotografadas reagem habitualmente à tua presença? Tens alguma estratégia de forma a criar empatia, para que depois te possas aproximar sem grandes problemas?

RNo terreno, a estratégia é chegar, disparar e acabou. Depois, mais calmamente, partilho então o momento através do LCD. Difícil era quando se trabalhava exclusivamente em filme, onde após cada “disparo” não se tinha nada para mostrar e partilhar. Foi assim que fiz o meu livro “Amazónia Oculta” e acredita que não foi fácil. Hoje em dia as coisas são muito mais simples, porque é só virar o LCD e está feito. Mas a estratégia também se aprende através, por exemplo, dos workshops que eu dou regularmente, pois é a melhor forma de explicar aos novos fotógrafos como se devem comportar no terreno. Como resultado desdes workshops, por vezes, há ainda espaço para eu levar alunos em viagem para que possam também aprender com a minha acção e experiência.

PMuito do teu trabalho é registado a preto e branco. É uma questão de gosto pessoal ou achas que é um trabalho onde há obrigatoriamente a transmissão de uma mensagem diferente?

RNão é tanto uma questão de gosto pessoal, mas sim ao fim a que se destina. Dispondo a fotografia de um conjunto diversificado de targets, entendo que o preto e branco é um tipo de imagem dirigida a um target especial.

PProcurando ganhar algum distanciamento do que já fizeste, consideras que tens sido um privilegiado na tua profissão? Porquê?

RPrivilegiado? Eu agradeço a mim tudo isto, mas também a Deus e às pessoas. Sem sombra de dúvida que sou um grande privilegiado, porque dizer que se faz aquilo que realmente se gosta, acho que só 3 ou 4% das pessoas o podem dizer no mundo. Eu posso dizer que faço exactamente o que gosto, como gosto e quando gosto. É óbvio que tenho algum tipo de responsabilidades com o mercado, mas também me posso dar ao luxo de pagar 700 € / mês pelo colégio do meu filho, o que nos dias de hoje não é propriamente fácil.

PCom os anos de actividade que já levas, seguramente terás um imenso património acumulado. Há algum projecto para que o teu trabalho ainda desconhecido possa chegar junto do público em geral?

RQuero fazer um bom livro onde possa mostrar, de forma muito clara, quem é o Nuno Lobito. Sem entrar em pretensas autobiografias, quero abrir o jogo para que as pessoas percebam quem sou, de onde vim e por aquilo que passei. Tranquilamente quero levar às pessoas muito do que elas ainda não sabem.

PAlém das revistas, onde habitualmente publicas os teus trabalhos, que outros veículos utilizas para fazer chegar ao público a tua experiência enquanto viajante e fotógrafo? Queres falar um pouco deles?

REu já faço muita coisa relacionada com as viagens e fotografia que me faz chegar junto do público. Como em parte já referi, procuro chegar junto do target onde estão os novos fotógrafos, desenvolvendo para isso várias actividades: programas de televisão, aulas e palestras.

POnde encontras inspiração para as fotografias que fazes?

RDentro do meu coração. A inspiração resulta do instante em que olhando para mim, sei o que sinto naquele determinado momento. A técnica está lá, dentro da cabeça e junto à parte racional, mas a inspiração é muito mais emotiva e vem do meu coração. Depois há ainda o efeito indutor relacionado com o facto de estar a conhecer outros locais e pessoas. Aliás, é em parte por isto que normalmente não fotografo em Portugal.

PComo é que habitualmente escolhes o equipamento que levas para as tuas viagens? É sempre composto pelo mesmo conjunto de câmaras e objectivas, ou vais adequando a escolha conforme o tipo de viagem?

REu tenho três tipos de câmaras: uma Leica M8, que é para brincar; uma Sony Alfa 850, com 26 milhões de píxeis, que é um Ferrari à séria; e a Leica Digilux, que fez comigo a Amazónia. Normalmente levo sempre as três, até porque cada situação tem as suas características próprias. Procurando encontrar uma analogia, é quase como umas vezes gostar mais de viajar de jeep, outras de cabriolet e outras, ainda, de bicicleta.

PTendo cumprido, em Novembro passado, um dos teus grandes objectivos de vida, que foi completar essa grande epopeia de pisar o solo de todos os países do planeta, pode dizer-se que conheces o mundo?

RConheço o mundo no sentido em que já pisei todos os países que ele comporta, mas o mundo conhece-se a andar. Depois de ter fechado este capítulo já passei por mais 10 países, mas com objectivos e caminhos diferentes. O que posso garantir é que jamais irei parar de viajar, porque só assim se consegue continuar a aprender.

PConsideras que se tratou de um caminho com um ciclo de aprendizagem contínua, onde a linha de chegada nem sempre esteve muito bem definida?

RSim. Está no meu ser a busca pelo conhecimento, no sentido em que a aprendizagem não tem definição, até porque é contínua. No dia em que deixarmos de aprender, automaticamente deixamos de ser humanos para passarmos a ser burros.

PUma aventura desta natureza só é possível com alguma dose de loucura, muita determinação e coragem. Talvez a fazer lembrar os portugueses destemidos que ousaram partir nas caravelas. Os descobrimentos portugueses tiveram algum tipo de influência na forma como tu também procuraste desbravar o mundo?

RO que nos falta hoje em dia é identidade. O SER português está no meu sangue, até porque eu nunca me esqueço da história de Portugal; nunca me esqueço daqueles homens que partiam para o Brasil, muitas vezes com 600 à partida e apenas 60 à chegada. Não me esqueço das nossas raízes e da força que podemos encontrar cá dentro, por isso, mantenho-me fiel a esta vontade de ser português e estou certo que podemos dar muito mais. Temos é que, sem paranóia ou medo de “atravessar o oceano”, lutar para alcançar os objectivos e “ir até lá”; temos que desbravar e não ter medo desta loucura saudável, porque depois… Depois, quando voltamos, é uma alegria e emoção sentir que valeu a pena.

PHá algum viajante nacional ou internacional que te tenha inspirado para este projecto? De que modo?

RSim, há dois viajantes de que gosto em especial. Um deles sou eu (risos) e o outro é o malogrado José Megre, que foi um viajante com quem aprendi e cresci muito. O Megre é sem qualquer dúvida o único viajante que tenho como referência. Não é por acaso que lhe prestei uma grande homenagem quando visitei o Iraque, pois foi o único país onde ele não conseguiu entrar. Mas há por aí uma nova geração que é boa. Lembro-me do Filipe Morato Gomes, que por ter sido meu aluno tem, logo à partida, o meu cunho bem marcado e sabe perfeitamente o caminho que tem que traçar. Aliás, fizemos juntos um Safari de Wolksvagem Golf, entre o Zimbabwe e a Namíbia, que o Filipe seguramente nunca mais irá esquecer. Depois há o Gonçalo Cadilhe que, embora tenha construído um caminho diferente do meu, é um viajante que admiro e também cresceu um pouco comigo. Já os Leitões, Peixotos e não sei mais quem, não merecem que perca tempo com eles. São meninos de escola que têm a mania que são bons mas, espremendo bem, o resultado do que fazem não dá em nada.

PO que é que representa verdadeiramente ter estado em 204 países, incluindo alguns dos territórios não reconhecidos pela ONU? Isto faz de ti uma pessoa diferente?

RNão se trata de fazer de mim uma pessoa diferente. Agora poder demonstrar que visitei todos os países do mundo e ser o português mais viajado, tanto no “Most Traveled People” como no “Travel Century Club”, é ter um estatuto que me leva a ter mesmo pisado os 204 países e territórios reconhecidos pela ONU. Uns durante mais tempo, outros menos, mas estive em todos. Orgulho-me imenso dos 6 passaportes que tenho cheios de vistos e carimbos. Para mim ter atingido este feito, é acima de tudo uma sensação de missão cumprida. Venham agora mais países, porque eu estarei lá (risos).

PQual é a ideia que está subjacente a esta vontade tão obstinada de “fechar o mundo”? Porque era tão importante conseguir este feito?

RNão se trata de fechar o mundo. O mundo não está fechado. Para mim, o facto de ter visitado todos os países do mundo, é que é um ciclo fechado. Eu vou continuar a fotografar e viajar, mas sem que o mundo se possa considerar fechado.

PE porquê a Islândia como o último país a ser visitado?

ROlha! Porque eu casei-me com a Carol em Islândia. Não no país onde acabei o mundo, mas sim num pequeno povo da Amazónia peruana. Eu prometi à minha mulher que terminava o mundo na Islândia, não só para concretizar este casamento especial que foi o grande projecto 11.11.11, mas também para lhe prestar uma homenagem muito sentida. É, portanto, uma homenagem que faço à minha princesa, porque ela merece.

Nuno Lobito fotografa mulher árabe

PRecentemente o viajante Nuno Lobito foi acusado de ser uma farsa. Aparentemente existe por aí um conjunto de pessoas que não reconhece o facto de teres estado nos 204 países que afirmas. Como respondes a estas provocações?

REspero que esses indivíduos tenham a coragem de falar comigo face to face, sem que se escondam atrás de pseudónimos, computadores ou redes sociais, porque isso é uma atitude de menino da escola. E aos meninos da escola, eu costumo dizer-lhes que os apanho na altura certa, aliás, como apanhei. Eu só quero é que esses pseudo-viajantes que, apesar de tudo são sempre bem-vindos, me digam onde não estive e porque são tão invejosos; porque têm tanta inveja do Nuno Lobito!? Juntem-se é a mim e aprendam comigo, pois é esse o caminho. Eu posso provar a minha estada em todos os países onde afirmo já ter estado, coisa que muita dessa gente não consegue fazer.

PA actividade de viajante, onde até parece haver uma ideia de entreajuda entre os diversos intervenientes, pode afinal atrair algum tipo de inimigos. Consideras que todos estes anos acabaram por criar invejas e desenvolver inimigos?

RÉ óbvio que passados todos estes anos tenho mais inimigos e invejosos do que amigos. Às vezes é até difícil perceber o porquê, mas eu pouco me importo. Embora a inveja não entre no meu mundo, o certo é que também nunca vi ninguém invejar algo mau. Enfim, até me dou por feliz! No fundo, é através desdes meus “inimigos” que eu busco e encontro a força necessária para lutar pelos meus objectivos.

POlhando aos meses que passas na estada todos os anos, como é que a tua família reage à ausência e falta de disponibilidade?

RNão comento. Família é assunto privado. A família está bem e tranquila, mas como devem compreender não é fácil. É por isso que lhes presto grandes homenagens e agradeço o facto de aturarem esta loucura saudável.

PGeralmente viajas sempre sozinho. Vês nisso uma vantagem? Nunca dás contigo a desejar ter alguém por perto com quem possas partilhar, por exemplo, uma experiência intensa do ponto de vista emocional?

RDesejar? Eu não desejo. Quem deseja sofre. Desejo é futuro e eu vivo o presente… É viajando sozinhos que podemos aprender e, no fundo, estarmos connosco. Quando se viaja na companhia de alguém é provável que após algum tempo se possa conhecer melhor essa pessoa, mas isso também se poderia alcançar sem sair daqui. Eu prefiro conhecer um Belga, um Chinês ou um Iraniano e partilhar a experiência directamente com eles. Depois há ainda aquela questão que ensombra as viagens de uma dupla ou grupo: o facto de num dia um querer ir para a esquerda e a outro para a direita. No meu caso em particular, eu viajo cerca de 90% das vezes sozinho, contudo, há que não ver isto como uma ideia hermeticamente fechada, até porque em alturas específicas é bom levar os alunos em viagem – tal como fiz há uns tempos com o Filipe Morato Gomes. Há que viajar com as pessoas certas, nos momentos e alturas certas, sem ter de viajar só por viajar.

PContinuas a viajar de mochila às costas numa atitude backpacker? Vês nisso uma mais-valia, no sentido em que te permite chegar mais perto das pessoas?

RNormalmente viajo numa atitude backpacker, mas se for preciso também tenho guardada uma Louis Vuitton. Antes de partir há que perceber o sítio para onde se vai: se o destino é Nova Iorque eu não levo a minha mochila, mas se é Amazónia obviamente que levo. Embora me identifique como mochileiro e reconheça ser uma mais-valia que nos permite outro tipo de aproximação junto das pessoas, há hoje coisas que já não “papo”: não faço, por exemplo, outra vez a Amazónia ou a viagem Portugal – Nigéria de carro. É preciso adaptação às circunstâncias do destino. Dentro de meses vou de túnica para as Andaman Islands, na Índia.

PDepois de tantas viagens, pessoas e experiências, o que é que ainda te consegue surpreender?

RO ser humano pela sua ignorância. Quando se sabe que no mundo há 20% da população a passar forme, mas ao mesmo tempo 8% anda a fazer dieta, há aqui qualquer coisa que não está bem. Há por aqui uma inversão de valores e prioridades. Também me preocupa muito ver as pessoas chegarem ao futuro, sem que tenham vivido o presente. Os humanos “chutam” cada vez mais para a frente, sem que façam por ser felizes agora, hoje, no dia-a-dia… Surpreende-me muito que a grande maioria das pessoas viva muito o futuro. O futuro não existe porque já passou. Afinal, o que é que nós vamos levar daqui? Nada! Há que viver o presente, sem medos ou rodeios.

PExiste algum destino, experiência ou viagem que hoje escolherias não ter efeito? Pelo menos da forma como acabou por decorrer?

RIsrael. Andei por lá e não gostei nada da forma como me trataram. É um povo que eu ignoro e normalmente prefiro não falar. Além disso, é um povo que busca o perfeccionismo das coisas, mas sustentado por um ideal que na minha perspectiva é uma utopia. Se eles continuam sem resolver os traumas do passado, só têm que partir para outra. Eu é que não tenho que levar com aquilo. Enquanto lá estive fui muito pouco respeitado. De qualquer modo, tenho que reconhecer que também há por lá gente boa, como é o caso dos fulanos com quem viajei em 1988 – um grupo de indivíduos fugido do país para não serem obrigados a ir para o exército.

PHá alguma viagem que nunca fizeste e que seguramente nunca farás?

ROlha! À Lua. Nunca irei à Lua. É uma coisa que não me diz absolutamente nada. Mas em breve, lá para meados do ano que vem, se tudo correr bem, vou ao Pólo Norte. Voltarei a ser um português pioneiro em mais um grande projecto. Step by Step vou chegando lá…

PE qual é a viagem que não poderás deixar de fazer um dia?

REu posso dizer que sou uma pessoa realizada, até porque fiz todas as viagens que idealizei e que me apeteceram fazer. Em boa verdade a melhor viagem que todos podemos fazer é ao nosso interior… É estar disposto a ir para um templo budista durante 15 dias. Ousem fazer esta viagem e venham ter comigo para contar como foi. Em parte, o Nuno Lobito é hoje aquilo que é, depois de ter empreendido uma destas viagens.

Nuno Lobito em meditação

PQuais são as regiões ou países mais fascinantes que já visitaste? Porquê?

RPara simplificar, talvez seja melhor dividirmos isto por continentes. EUROPA: Portugal, que é o meu país de eleição, e… Talvez o Báltico e Escandinávia, no verão – Estónia, Dinamarca e também um pouco da Suécia. De qualquer modo, a Europa é um continente velho e morto; muito caro e onde se aprende pouco. ÁFRICA: Somália, Congos, Burundi, Ruanda… É o continente para os grandes viajantes. Para aqueles que conseguem sobreviver a temperaturas superiores a 50 graus e andar no meio do mato, muitas vezes a dormir que nem cães. ÁSIA: Índia, Tibete e Laos. No fundo é o continente que se identifica melhor com a minha espiritualidade e forma de estar, muito através daquela linha budista e da multiplicidade que me fascina até à morte. OCEÂNIA: este continente, composto por tantas ilhas que algumas nem sei bem onde ficam, surpreende-me pela sua beleza e pela aventura que propicia. Agora que tenho mais tempo para entrar no detalhe dos locais que visito, ainda vou “bater” muito aqueles Naurus, Kiribatis, Papoas… Já em termos de países, o meu top5 é o seguinte: Irão, Indonésia, Amazónia (embora seja uma região), Portugal e Madagáscar. São os locais que realmente gosto e venero. E porquê!? Porque foi lá que me senti completamente em casa e onde fui muito bem recebido pelas pessoas; onde me foi permitido desenvolver uma interessante partilha entre aquilo que, por um lado, eu sei e, por outro, as populações locais também sabem.

PLembras-te do país onde foi mais complicado entrar ou permanecer?

REntrar? Talvez o Turquemenistão, onde estive quase 6 semanas à espera do visto. Trata-se de um país complicado, onde o governo só autoriza a emissão de 10.000 vistos anuais para o mundo inteiro. Já no que respeita à permanência voltamos a Israel. Não há mais nada a acrescentar.

PConsegues isolar o episódio ou situação que positivamente mais marcou as tuas viagens?

RPositivamente, acho que me marcam todos. Posso, no entanto, destacar o momento em que cheguei ao aeroporto de Lisboa, no dia 11.11.11, com o espírito de missão cumprida. Foi o culminar da grande viagem que empreendi durante todos estes anos. O facto de ser recebido pela minha família, os meus pais, televisões, rádios, os amigos da juventude leonina, a minha primeira namorada e pessoas que já não via há vários anos, foi também muito especial.

PE negativamente?

RVolto a referir a experiência resultante da estada em Israel. É um país que não merece qualquer outro comentário. É mau demais.

PTambém conhecida é a tua relação especial com o número 11. Aliás, fizeste questão em “fechar o mundo” no dia 11.11.11. O que há de tão especial com este número? O que significa verdadeiramente para ti?

RO número 11 é basicamente o 1 com 1; a parte cósmica. UM somos nós. UM é o divino… É o vai e o recebe. Na cosmologia, esta ligação entre o EU e o divino permite-me meditar sobre o que realmente preciso, bem como obter as respostas que necessito para continuar o caminho, que no fundo é isto a que chamamos vida. O número 11 é tudo para mim… É o meu caminho, o meu Karma, a minha acção e a minha vida.

PÉ público que professas a religião budista. Porquê esta e não qualquer outra? O que encontras no budismo que não no cristianismo ou islamismo, por exemplo?

RAntes filosofia porque, ao contrário da religião, no budismo não há qualquer Deus para adorar. No budismo eu encontrei uma filosofia que é o prumo da minha vida e me ajudou a descortinar o caminho que precisava construir dentro de mim. Eu pertenço a um ramo denominado Hinayana – uma escola, um pequeno veículo que segue o cânone Páli – que, entre outras coisas, não acredita na reencarnação. Nós acreditamos que, através da meditação e do que representa o número 11 na cosmologia, podemos construir o nosso caminho. No fundo, o budismo somos nós… Sobre outras religiões, não me quero pronunciar muito, mas reconheço existirem alguns aspectos do Islamismo de que gosto. Quanto ao Cristianismo, e embora tenha crescido com ele, parece-me desactualizado sobre a realidade do momento.

PE qual é o peso que a meditação tem na tua vida?

RA meditação permite-me saber quem sou e o que quero continuar a ser. Para meditar, e ao contrário do que muita gente poderá pensar, não é necessário ficar naquela posição hermética que frequentemente gostam de passar na TV ou nos livros. Basta que consigamos concentrar o nosso pensamento num único ponto, através de um processo de equilíbrio entre o corpo e a mente. Eu faço isto frequentemente dentro do mar, enquanto surfo, nas minhas caminhadas ou nas minhas viagens. Para mim a meditação é um sinal de leveza, muito importante para que neste momento me sinta muito bem.

PEm determinada altura tiveste o privilégio de conhecer pessoalmente sua santidade o Dalai Lama. Até que ponto esta experiência mexeu com a tua espiritualidade? Foi aqui que decidiste a conversão ao Budismo?

RNão. A conversão ao budismo foi feita muito tempo antes na Tailândia. O facto de estar em Tabu e receber aquela Kalachakra de sua santidade, não mudou propriamente a minha espiritualidade, mas reconheço que em parte complementou-a. Apesar de sua santidade seguir um ramo do budismo denominado Mahayana (usam os trajes bordeaux) e eu, como aliás já referi, o Hinayana (usam os trajes laranja açafrão), foi um grande orgulho. No fundo são dois caminhos com vários preceitos iguais que se complementam. De qualquer forma, o Dalai Lama é das poucas pessoas que venero enquanto mestre. Antes dele, só mesmo a minha família e o Sporting Clube de Portugal.

PÉ verdade que sua santidade consegue imanar, muitas vezes só com a sua presença, uma grande serenidade e apaziguamento de espírito?

RSim… É possível sentir o que sua santidade consegue imanar sobre o nosso caminho. Desenvolve-se uma serenidade de espírito muito bom, porque conseguimos perceber quem somos. Um dos grandes problemas é que nós não nos conhecemos nem a 10%.

PÉs uma pessoa supersticiosa?

RSim, sou uma pessoa que acredita na superstição. Basta olhar para o facto de ter terminado o mundo em 11.11.11. De qualquer forma é uma coisa pessoal, até porque geralmente a superstição em nada tem a ver com a filosofia de vida, mas sim com o acreditar interior.

PAlguma vez dás contigo a pensar que a tua experiência de vida poderia ter resultado em qualquer outra coisa?

RNão. Completamente impossível! A minha experiência de vida só poderia ter resultado em fotografia e viagens. Como irá terminar!? Isso é que não sei. Seguramente que as duas valências estarão por lá. Agora de que forma, só o futuro o dirá. Eu não sei nem quero fazer mais nada. Acho que cada um deve fazer aquilo que sabe e gosta, deixando o que não conhece e domina para os entendidos na matéria.

PAcreditas que cada indivíduo é o único responsável pela construção do seu destino?

RNão tenhas a mínima dúvida. O grande problema é que 90% das pessoas não sabe disso. Cada um é responsável por construir o seu caminho e fazê-lo a andar. Sem derivas. Focado no essencial. As pessoas não podem estar em casa à espera que alguém lhes bata à porta para dizer: olhe, não quer fazer isto? Não pode ser! Há que trabalhar, dar o litro e mostrar o que somos. Mais, provar a nós próprios que conseguimos e chegamos lá. Depois, o resto vem por acréscimo.

Nuno Lobito em África

Nuno Lobito em viagem

PCom crises globais, políticas incompreensíveis, troikas, guerras e desgraças várias, o ainda jovem século XXI, tem sido parco em agradáveis surpresas para a humanidade. Olhando à realidade dos factos, achas que o mundo tem sido ignorante em não se perceber a ele próprio?

RSobre isto, só me posso remeter a um único estado: ao silêncio. Falar em troikas, guerras e todas as outras questões, que neste momento afectam Portugal e o Mundo, é uma enorme perca de tempo. O que é preciso é que todos se preocupem em dar e fazer melhor porque, se assim for, seguramente que as coisas estarão diferentes daqui por uns tempos. Há que não esquecer que o planeta é construído por nós. E a felicidade, onde fica? Já que não se pode comprar na loja, é preciso vivê-la. Temos que nos preocupar em ser felizes e esquecer esta tristeza de proporções globais. Do meu lado, eu estou a fazer a minha parte. E vocês, já fizeram a vossa?

PFalando agora um pouco de outro dos lados da tua actividade, como está a correr a tua experiência televisiva? É algo que gostavas de aprofundar?

RNão só estou a gostar, como acho que vou continuar a fazer este tipo de coisas. Para já estou a gravar uma série chamada “Revelações”, composta por 200 programas de 7 minutos cada, actualmente em exibição na RTP Memória. No fundo, trata-se de um formato onde procuro dar a conhecer 200 países; 200 fotografias; 200 histórias. É um programa que gostaria de ver em outros canais, não porque esteja preocupado com audiências, mas porque seria a forma de fazer chegar o mundo a mais pessoas. De qualquer forma, penso que está tudo a correr muito bem, até porque nunca recebi uma crítica negativa sobre o que quer que seja.

PSe te dessem oportunidade de fazer um programa televisivo exclusivamente de tua autoria, onde o tempo não estivesse tão condicionado, que tipo de conteúdos gostarias de produzir?

REu tenho vários projectos que já foram apresentados a várias entidades, nomeadamente à RTP. De qualquer modo, continuo a sublinhar que qualquer programa que venha a fazer, terá forçosamente que ver com fotografia ou viagens. Eu defendo que as pessoas só devem desenvolver projectos sobre as áreas que dominam, porque quando assim não é, só andam a armar-se em espertos. Aliás, não é por acaso que muito raramente falo sobre aquilo que não conheço.

POutra das vertentes, porventura até menos conhecida das pessoas, é o teu envolvimento na formação. Será que o facto de transmitires os teus conhecimentos técnicos e humanos, pode de alguma forma perpetuar o Nuno Lobito enquanto fotógrafo e viajante?

RSim, em parte é verdade. Eu aposto muito na formação, até porque é uma das áreas onde acredito existirem algumas lacunas em Portugal e no Mundo. Nas minhas formações, além da óbvia componente técnica, aquilo que me parece mais importante é a transferência do conhecimento humano. Não me querendo repetir, é o mostrar quem somos, o que queremos, o saber onde estão os nossos limites e o saber conhecermo-nos a nós mesmos… Há que ter noção que a vida não é mais que uma passagem, portanto, vamo-nos é ajudar e mostrar compaixão uns pelos outros. Eu estou sempre do lado dos meus alunos e dou sempre tudo o que esteja ao meu alcance; estou sempre pronto a ajudar e colaborar. Qual é o resultado disto tudo!? É, por exemplo, a avaliação de 93,8 (numa escala de 0 a 100) que os meus alunos da Restart me atribuíram este ano. Isto é um imenso orgulho e sinal de missão cumprida. Eu posso não ser o melhor, mas garantidamente que dou sempre o meu melhor.

PAlém da componente técnica óbvia, qual é a principal mensagem que procuras passar aos teus alunos?

RProcuro passar uma mensagem muito simples: olhem para o meu exemplo, porque se eu consegui vocês também vão conseguir. Depois há também um trabalho no sentido de os preparar para os muitos NÃOS que vão receber, pois é preciso estar preparado para aguentar um NÃO e os comentários do tipo: “este trabalho não presta… Não vale a pena continuar. Muda é de profissão!”. A isto é que é preciso responder com um redondo NÃO, mantendo-nos fiéis e fortes nas nossas convicções. É por esta falta de preparação que muitas vezes começam 100 para depois acabarem uns 3 ou 4. Mas, mais uma vez, vale a pena seguir o caminho. Eu tenho por aí uma série de bons alunos: fotógrafos fortes que estão no Público, Diário de Notícias e Correio da Manhã. É gente que tem o meu cunho e alma, e que a seu tempo vai dar que falar. Todos eles sabem que podem contar comigo para ajudar naquilo em que eu puder.

PNão havendo agora uma “perseguição” tão obstinada por visitares novos países, a formação é uma área onde te vês mais empenhado e envolvido?

RAcredito que sim. Os 16 anos que já levo com formador, em escolas tão diferentes como o ETIC, Espaço Oásis, Restart ou IPF, permitem-me antever boas oportunidades. Curiosamente um dos locais onde gostava de dar aulas e ainda não o fiz, é na escola onde fui formado – o ARCO. Olha! É uma das coisas onde tenho que me empenhar para poder concretizar em breve (risos).

PSendo tu uma pessoa onde os projectos e ideias aparecem quase em catadupa, achas que a vida vai ser suficientemente longa para conseguires colocar tudo em prática?

RNão aparecem, constroem-se! Os projectos têm de ser construídos sob uma matriz de coerência e solidez. Muitas das vezes os projectos surgem de objectivos que no fundo são as etapas do meu dia-a-dia. Eu não concebo uma vida sem objectivos, porque senão acho que o melhor é mandar-me da ponte. Eu sou daquele tipo de indivíduos que quer trabalhar até aos 100 anos, porque eu adoro produzir, partilhar, dar palestras e formar alunos. É frequente eu estar na cama, já deitado, e levantar-me para me sentar em frente ao computador e escrever um bocado sobre qualquer ideia que surgiu na minha cabeça. Portanto, há realmente um grande número de projectos, mas são sempre feitos e desenvolvidos por mim.

PEnquanto viajante, há algum segredo que nunca tenhas revelado e que o possas fazer neste momento?

RVou só avançar com a seguinte ideia: na vida, já alcancei aquilo que as pessoas queiram imaginar como “cem”, mas também já resvalei sobre o “zero”. Ao longo de todos estes anos, cheios de contrariedades, mas também com muitas alegrias, eu já atingi os dois pólos opostos. Agora, cada um que imagine o que quiser. De qualquer forma, acho que posso revelar um pequeno segredo do meu dia-a-dia: estou à espera do meu cigarro electrónico porque, em princípio, vou deixar de fumar muito em breve. Eu não tenho nada contra os fumadores mas, devo reconhecer que após todos estes anos, já é uma coisa que me enoja.

PQue conselho podes deixar aos leitores que só agora se estão a iniciar na arte de viajar?

RAcho que devem estudar fotografia no sentido em que possa ser uma actividade complementar às viagens. É uma excelente forma de ganhar dinheiro e financiar outros projectos e outras viagens. Enquanto fotógrafos devem procurar ser bons técnicos, disciplinados, determinados e acreditar sempre, porque quando assim não é, o melhor é fazerem-se à vida e enveredar por outro caminho: trabalhar nas vindimas em França, nos kiwis na Córsega, nas laranjas na Grécia, nas tulipas na Holanda ou nas pizzarias em Milão. Sobretudo, parece-me que devo deixar uma mensagem de esperança porque o caminho não é uma utopia. Avancem, sem medos e lutem até à morte. Não desistam. Dêem o vosso máximo e sejam fortes.

PQuais são os teus planos para 2013? Tens novos projectos na calha? Podes revelar um pouco de algum deles?

REmbora tenha vários projectos em estudo, o que se assume de maior relevância é aquele que já referi anteriormente: quero espetar uma bandeira do SCP no Pólo Norte e ser o primeiro português a ter lá chegado. Trata-se de uma viagem que custa muitos milhares de euros, onde é necessário fazer parte da equipa que irá desenvolver a expedição comemorativa dos 50 anos da descoberta do Pólo Norte, e onde há obrigatoriamente que conseguir alguns patrocínios. Estou a fazer um grande esforço no sentido de conseguir mais este grande feito, mas caso não venha a ser possível, nem que o tenha de fazer em 2030. Não tenham a mínima dúvida que eu, o viajante Nuno Lobito, um dia vou pisar o Pólo Norte. Também para 2013, além de uma viagem que tenho previsto para a Mongólia, existem uns quantos países que ainda não estão totalmente decididos. Ainda há muita coisa para ver, porque o mundo não se faz em 29 anos, mas talvez em 100. Agora eu estou numa fase em que quero conhecer a “nata” que cada país tem para oferecer.

  • Asiática em rua de Nova Iorque
  • compras no mercado árabe
  • mulheres e cães
  • mural em belfast
  • mulher com trage boliviano e criança
  • homem sorridente com turbante
  • praia deserta e céu azul
  • comboio verde
  • homem africano com turbante
  • mulher junto a sacos de cereais
  • Mulher árabe com seu filho
  • edifício destruído pela guerra
  • olhar através do Niqāb
  • estrada entre montes
  • homem com turbante e sem dentes
  • homem himba na Namíbia
  • mulher himba a aleitar filho
  • céu espelhado na água
  • criança africana junto a edifício colorido
  • formação dunar no deserto

O Mundo aos meus Olhos

As fotografias disponíveis na galeria acima, fazem parte do livro “O Mundo aos meus Olhos”: última publicação do fotógrafo Nuno Lobito, numa edição exclusiva e de autor. O livro, com 150 imagens representativas de 100 países, não se encontra disponível nas livrarias, podendo apenas ser adquirido online. Os interessados em adquirir esta obra, com uma produção cuidada e imagens de rara beleza, devem transferir € 29,90 para o NIB 0007 0000 0072 7392 9132 3 e contactar o autor, através do email nunolobito@me.com, onde deverá ser indicada a morada de envio. Os portes de correio estão incluídos no preço.